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O Fantasma da Ópera

O horror é invenção

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

O Fantasma da Ópera

O cinema, por si só, é uma arte da descoberta de fantasmagoria, ou produtor de suas próprias alucinações? “O Fantasma da Ópera”, novo filme dirigido por Julio Bressane e Rodrigo Lima, abre a Mostra de Cinema de Tiradentes com uma responsabilidade particular ao evento, que é ciceronear um dos maiores eventos da área no país. Sua primeira finalidade está encerrada nessa questão, mas além dessa exibição, o filme se estabelece como uma peça de encantamento e homenagem, ao próprio Cinema enquanto arte que inebria, e, se possível, observatória de seu Criador. Para longe do que efetivamente é, o filme de 26 minutos voa longe das telas para provocar com suas imagens desconfiadas e cheias de camadas.

Em tese, trata-se de um making of de um próximo projeto de Bressane e Lima, protagonizado por Paulo Betti, “Pitico”. O que é conseguido a partir da magia dessa simplicidade é algo que só os deuses do cinema justificam: o que naturalmente se desenvolveria como uma apresentação futura, se transforma na tela graças não somente ao acaso, mas muito do trabalho de montagem, fotografia, roteiro e, óbvio, da condução desses dois artistas. De gerações distintas, o trabalho que une os cineastas se complementa e comunica muito do que são as motivações do realizador de “Miramar” e ‘Dias de Nietzsche em Turim”; o encontro com a arte pode ser subjetivo na abrangência e na relação com a proposta, o que não é, é a capacidade de feroz de arrancar significado e poesia da aparente imagem prosaica.

Nos corredores por onde a equipe de filmagens passa, o que vemos correr por trás dela são os aspectos recônditos da arte cinematográfica; vestígios das imagens, capturas furtivas, e um manancial de possibilidades que surgem das frestas. O que então é construído parte do coletivo de criação imaginativa e imagética, que realça a temática do festival desse ano. Afinal, Bressane é um dos poucos que, ao completar 60 anos de carreira, pode capturar para si a uniformidade de uma soberania imaginativa cara à ele. Às custas de incompreensão estético-narrativa, sua obra caminha imortalizando-se longe dos ditos padrões normativos do cinema. “O Fantasma da Ópera” é mais uma resposta a essa carreira autônoma do que os padrões ditam largamente para definir valores e questões.

Aqui, Bressane e Lima descortinam essas fórmulas abstratas que podem tratar da configuração de códigos cinematográficos, sejam eles do documentário, ou mesmo do horror. Tais normas precisam ser reinterpretadas, ainda que para reafirmar suas chaves tradicionais. O que “O Fantasma da Ópera” ressignifica é a tradição dos bastidores, porque encontra nessas imagens significados de ficção narrativa. Nas brechas dos planos, um olhar é lançado na direção da equipe; quem olha, o fantástico ou o espectador? E qual capa de assombração cabe a quem apenas funciona com passividade na relação ao cinema? Talvez configurar em cada imaginação o papel de inventar a fantasia, retribuindo ao espectador p processo dessa mesma soberania imaginativa; a imaginação nunca foi só minha, eu também a oferto a quem me seguir, diz Bressane em silêncio.

A divisão de campos, entre o colorido e o preto e branco, ajuda a narrativa a criar pólos de interpretação ligeiramente mais concretos. Obviamente, a catarse abre mão da cor para embrenhar-se na poesia do perigo da abstração, da liberdade para corromper o real rumo ao lúdico. É na ausência de vida que também observamos os sonhos e a máquina que provém o desconhecido; ou seja, a porta de entrada para os espectros que habitam a arte.

É como se “O Fantasma da Ópera” fosse um objeto que permite a ilusão em todas as instâncias, porque nela cabem todos os segredos, todas as fabulações e todos os caminhos. Mais uma prova da liberdade criativa do artista na capacidade infinita em tornar o espectador cúmplice, quer ele queira ou não participar do jogo de máscaras. É um jogo que precisa ser jogado, e alimentado por ao menos uma das partes; com humildade, Bressane e Lima permitem a entrada em seu jogo de imagens, nas cadeiras de balanço, nas sombras criadas, para promover um manancial de deliciosas possibilidades.

4 Nota do Crítico 5 1

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