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O Castigo

Um estranho recurso

Por Vitor Velloso

O Castigo

Já faz alguns anos que o plano-sequência tornou-se uma ferramenta meramente estilística, como algum tipo de virtuosismo dos realizadores ou uma exposição egóica de determinados nomes da indústria, popularizada pelo Sr. Alejandro Iñárritu e seus exercícios descompensados no Norte Global. Porém, “O Castigo”, de Matías Bize, sabe exatamente como utilizar o plano-sequência enquanto ferramenta dramática, que impede o constante recorte temporal e espacial para manter o espectador fixado em uma perspectiva que aumenta a tensão pelo rigor desse tempo concreto. O problema é que o roteiro, assinado por Coral Cruz, se articula em uma direção muito estranha ao que está posto dramaticamente na trama, e o próprio recurso do plano-sequência se torna algo esvaziado, quando não… ignóbil.

O roteiro está tão interessado na relação do casal protagonista, Ana (Antonia Zegers) e Mateo (Néstor Cantillana), que utiliza o desaparecimento de seu filho, Lucas (Santiago Urbina), como mero recurso dramático para desenvolver os dramas, tensões e conflitos do casal, tornando a experiência enfadonha, previsível e aborrecida. Esse uso da situação como algo “revelador” de seus personagens está longe de ser algo novo, e O Castigo sabe disso; o problema é que a ideia toda parece absurda quando a proposta se limita a uma lavação de roupa suja enquanto o filho está desaparecido em uma floresta. Esses dois personagens se revelam pessoas verdadeiramente questionáveis, quando não insuportáveis, e o espectador tem de lidar com isso até o fim da projeção.

A despeito da relação conturbada, “O Castigo” compreende o desenvolvimento desse casal enquanto um protagonista uníssono e dúbio. Não existe uma separação dramática aqui: um existe em função do outro, e todas as questões estão interligadas. Se, em um primeiro momento, isso poderia ser uma boa ideia — para criticar justamente a perda das individualidades —, a experiência se torna apenas uma grande terapia de casal que demora para chegar a algum lugar. Quando o roteiro decide explicitar os meandros desses conflitos, tocando em temáticas interessantes, até corajosas, já é tarde na projeção, e boa parte dos espectadores já abandonou o barco a essa altura.

Aliás, o diálogo sobre o espaço de Lucas em suas vidas e a perspectiva de ele não ser mais resgatado gera um dos poucos momentos em que os diálogos funcionam com alguma veracidade dentro deste grande palco esquemático. Há uma sinceridade fatal, e compreensível, nas falas de Ana, e um horror assustado — e cínico — em Mateo. Nesse breve período, o roteiro encontra sua finalidade, mas já estamos próximos ao fim da obra, e não há mais tempo de ressignificação aqui.

Assim, mesmo que “O Castigo” seja consciente do recurso do plano-sequência, há uma falta de coerência entre a estrutura dramática que se apresenta e aquela que efetivamente se desenvolve, como se aquilo que o projeto ambiciona não estivesse diretamente posto nessa apresentação inicial. Essa falta de harmonia gera um estranhamento progressivo em um filme que, também pela escolha formal, não abarca nada além desse miolo problemático dos personagens, o qual não se sustenta durante quase 1h30, por um problema do roteiro aliado a essa escolha estética.

De toda forma, a sensação que o espectador fica com “O Castigo” é a de um longa-metragem que se prolonga para ser enquadrado enquanto um produto possível de ser distribuído, mas que talvez funcionasse melhor como um curta, sendo mais sucinto, sintético e direto em suas proposições dramáticas, sem criar uma série de diálogos ensaboados apenas para estender a experiência e tentar preencher o tempo com complementos que, teoricamente, tornariam os personagens mais complexos, mas que acabam exigindo linhas expositivas para traduzir isso de forma desnecessária e até preguiçosa.

O projeto não é desastroso graças às boas atuações centrais, especialmente a de Antonia Zegers, que consegue carregar os maniqueísmos do roteiro para algum funcionamento prático.

O castigo mencionado no título parece estar mais relacionado à impossibilidade de deslocamento, seja emocional, moral ou formal, que o filme impõe aos seus personagens do que ao evento trágico em si. Ana e Mateo permanecem estagnados em um ciclo sem fim, reiterando suas dificuldades, enquanto o plano-sequência converte o tempo em um contínuo estéril. Em vez de gerar densidade e tensão, a suposta rigidez formal revela as limitações de um projeto que equaciona ambição, estilo e desenvolvimento dramático de forma particularmente caótica.

2 Nota do Crítico 5 1

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