Nuremberg
22 celas em Nuremberg
Por João Lanari Bo
Festival de Toronto 2025
“Nuremberg”, dirigido por James Vanderbilt em 2025, tem tudo que se espera de um docudrama histórico: atores de destaque nos papéis principais e coadjuvantes de rostos conhecidos; uma história sobejamente conhecida, o julgamento de líderes nazistas em Nuremberg, 80 anos após o evento; enredo alternando referências reais com pitadas de licenças dramáticas; e, voluntariamente ou não, uma conexão com o que se passa em nossos dias, com indícios cada vez mais críveis de ressurgimento das mesmas tentações totalitárias que animaram Hitler e a turma de fanáticos que o acompanhava.
Nessa linha, o filme aparenta – ou quer – funcionar como um alerta, embalado, é certo, em um pacote de entretenimento. Talvez seja pedir muito, it’s only a Hollywood movie, diriam os céticos. Vanderbilt baseou o roteiro no livro do jornalista Jack El-Hai de 2013, “O Nazista e o Psiquiatra”, publicado em 2013, sobre o psiquiatra do Exército dos EUA, Douglas Kelley, que após a guerra foi designado para supervisionar e avaliar líderes nazistas capturados. A ideia era verificar se estavam aptos para julgamento, e também mantê-los vivos, já que suicídio era uma opção para alguns deles. Kelley é um dos protagonistas de “Nuremberg”, encarnado por Rami Malek.
Apesar de central no processo, Kelley é um nome praticamente esquecido: ele sequer era um personagem da minissérie “O Julgamento de Nuremberg”, do ano 2000, com Alec Baldwin e elenco estelar. Segundo o incontornável IMDb, a minissérie é baseada no livro “Justice at Nuremberg” de Joseph E. Persico e é aclamada por sua fidelidade histórica e atuações intensas. Ou seja, a distância histórica permite não apenas novas, e eventualmente enriquecedoras, interpretações: permite também que sejam reavaliadas interpretações “aclamadas”.
O filme de Vanderbilt, mesmo ostentando uma indisfarçável superficialidade e carregando nos truques de roteiro para captar a audiência, por si só traz uma novidade obliterada por décadas – o testemunho do psiquiatra que conviveu meses em primeira mão com uma liderança fundamental do III Reich, indicado por Hitler como seu sucessor, Hermann Göring (na fita, Russell Crowe).
Kelley era um sujeito ambicioso que viu nessa missão uma oportunidade de escrever um best-seller. Afinal, como foi possível esse grupo de homens cometer tais atrocidades, culminando com o Holocausto, uma verdadeira fábrica industrial de morte, que tirou a vida de 6 milhões de judeus? Ao longo de meses, ele conduziu horas de entrevistas e testes de Rorschach com os prisioneiros, incluindo o Reichsmarschall Hermann Göring, inteligente e sedutor, o oficial nazista de mais alta patente ainda vivo. O psiquiatra, que acaba se envolvendo com o investigado de uma maneira pouco ortodoxa, entra em conflito com as autoridades militares e é ejetado às vésperas do julgamento. Sua contribuição, entretanto, teria sido fundamental para a acusação construir o caso contra Göring.
Se o clássico de Stanley Kramer, “O Julgamento de Nuremberg“, rodado em 1961, explorou o julgamento tendo como pano de fundo a Guerra Fria, o filme de Vanderbilt termina por apresentar o acontecimento como um espelho da nossa era atual de autoritarismo. A estratégia de aproximação começa com o casting do elenco principal, Crowe e Malek, ao captar uma familiaridade do público com esses atores para projetá-la nos personagens. Crowe, escorregadio, com voz suave, elabora algo próximo de um monstro humano, que abafa as contradições do Göring real. Malek, revirando os olhos e sorrindo de forma enigmática, comunica-se com espectadores contemporâneos remetendo às suas performances anteriores.
O “Nuremberg” de 2025 não se pretende uma ruptura histórica sobre o que se passou no julgamento, obviamente algo complexo, mas sem dúvida lança uma nova luz sobre os bastidores. Douglas Kelley foi em frente e escreveu o livro prometido, lançado em 1947 com o título “22 celas em Nuremberg” – um fracasso comercial, provavelmente porque contradizia a crença popular de que os réus eram demoníacos por natureza.
Suas conclusões não estavam sintonizadas naquele momento do pós-guerra. Afinal, não haviam monstros ou psicopatas naquelas celas, mas sim pessoas normais, que assumiram comportamentos absurdos e condenáveis movidos pelas circunstâncias, seja por ambição de poder ou por puro oportunismo e carreirismo burocrático. A banalidade do mal, dizia Hannah Arendt.
À época, Kelley escreveu: Estou convencido de que há pouco na América hoje que possa impedir o estabelecimento de um estado semelhante ao nazista.
Qualquer semelhança com fatos e personagens contemporâneos não é mera coincidência.




