Nova Lituania
Cinema na encruzilhada geopolítica
Por João Lanari Bo
Karlovy Vary International Film Festival 2019
“Nova Lituania”, em cartaz no MUBI, é, a um só tempo, um exercício geopolítico e cinematográfico: poucos filmes terão tido essa preocupação pedagógica de propor um argumento ficcional tão ligado a questões de geografia e soberania. O dicionário define geopolítica como “campo de estudo que focaliza a importância da influência de fatores econômicos, geográficos e demográficos sobre a política, nas relações internacionais” – traduzir tudo isso para o entretenimento não é tarefa trivial. Em sua estreia no longa-metragem, o diretor e roteirista Karolis Kaupinis foi bem sucedido: e com a confiança de não se exceder em detalhes explicativos que certamente iriam desviar o foco e obscurecer o resultado. Filmado com uma pertinente proporção de tela de 4:3, formato acadêmico clássico, em preto e branco digital nítido e liso, cenas coreografadas com economia e precisão – “Nova Lituania” reproduz uma situação real experimentada pelo país em 1938, qual seja, o desespero dos lituanos diante da guerra que se avizinhava, nazistas de um lado, soviéticos de outro, agravado pela proximidade com um vizinho muito maior e igualmente desesperado, a Polônia. Partindo dessa premissa histórica, Kaupinis introduz três personagens fictícios: um professor-geógrafo idealista e quixotesco, um Primeiro-Ministro e ghost-writer acuado e cardíaco, pressionados por um Presidente movido por resignação e oportunismo. Alguns poucos coadjuvantes – esposa, sogra, sobrinha, reitor, general – emprestam verossimilhança suficiente à trama.
O contexto: poucas áreas no mundo tem um cenário tão complexo e carregado de ressentimentos como a região dos três países bálticos – Lituânia, Estônia e Letônia – e seu entorno imediato, Rússia, Polônia, Bielorrússia, Ucrânia, Finlândia, Suécia…além da Alemanha. Rússia (na época, URSS) e Alemanha hitlerista eram os principais polos imperialistas; Polônia no meio do caminho; e o resto, reagindo como pode. A conformação dos Estados-Nação bálticos, sempre nomeados em trio, mas que tem suas especificidades e diferenças, sofreu (e sofre) uma permanente fricção político-territorial, algo complicado de focalizar, em princípio, para observadores em um país longínquo como o Brasil. Quando o professor-geógrafo – sujeito excêntrico e patriota – resolve propor uma transferência salvadora de toda a população lituana, entre 2 e 3 milhões de pessoas, para um espaço vazio em algum lugar do planeta, a ideia, prima facie, pode soar absurda: mas, numa segunda leitura…nem tanto. Claro, umas das áreas cogitadas é no Brasil – são mencionadas inclusive “tratativas infrutíferas em São Paulo” – as demais foram Quebec (Canadá), Angola e Alasca. A rigor, este é único dado ficcional que atravessa o filme: obviamente, nunca houve nenhum movimento real sobre tal projeto salvacionista. Trata-se de uma fantasia quixotesca do personagem, apesar das ramificações surpreendentes na realidade. A Lituânia, que tinha conseguido a independência logo após a revolução bolchevique e o fim da 1ª guerra mundial, depois de séculos como vassala da Monarquia Czarista russa, era cobiçada pelos vizinhos, sobretudo pela União Soviética. Em 1938, o quadro era apavorante: todos os incidentes políticos e militares relatados em “Nova Lituania” – morte de um soldado polonês na fronteira, ocupação da capital Vilnius pela Polônia: concessão à entrada de tropas soviéticas no país em 1939; assinatura do Pacto de não-agressão entre a Alemanha e a URSS, que dividiu a Polônia ao meio, em cláusulas secretas, e abriu caminho a Stalin para ocupar os países bálticos – são historicamente verdadeiros. E asfixiantes: impactaram o professor-geógrafo e o Primeiro Ministro (depois de um enfarte, convertido em presidente do Banco da Lituânia). Juntos, quixotescamente, resolvem agir.
Com uma densidade populacional extremamente baixa, raciocinou o professor com seu saber de geógrafo, era evidente que alguém iria ocupar o país: alemães e soviéticos eram os candidatos. Sair fora o mais rápido possível é a solução. De fato, a Lituânia entrou num ciclo infernal de ocupações: em seguida a dos soviéticos em 1939, caiu nas mãos dos nazistas, quando os alemães invadiram a URSS em 1941. Estima-se que em dezembro daquele ano, poucos meses depois da invasão, mais de 120.000 judeus lituanos, ou 91-95% da comunidade judaica da Lituânia antes da guerra, foram assassinados. Entre julho de 1941 e agosto de 1944, período da ocupação nazista, cerca de 100 mil pessoas foram executadas perto da estação de trem Paneriai, na capital Vilnius, incluindo judeus, partisans lituanos, poloneses e russos residentes. Foram anos brutais. Os soviéticos também exerceram a brutalidade: já entre 1939 e 41, quando ocuparam na Lituânia, suprimiram toda atividade política e deportaram para a Sibéria milhares de pessoas; somente em junho de 1941, uma semana antes da invasão alemã, 17 mil pessoas foram enviadas aos campos do GULAG, muitas das quais pereceram diante das condições quase impossíveis de sobrevivência. E não parou por aí: as deportações foram retomadas com o fim da guerra e a reocupação do país pelas forças de Stalin, em 1944. A Lituânia tornou-se uma República Soviética submissa a Moscou, a despeito da animosidade e resistência da população.
Quando o Império Comunista começou a cair, em 1990, a Lituânia foi o primeiro país a declarar independência: ato contínuo, filiou-se, junto com os demais vizinhos bálticos, à União Europeia e, mais providencial ainda, à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), sistema de defesa coletiva através do qual os Estados-membros concordam com a defesa mútua em resposta a um ataque por qualquer entidade externa à organização. Resumindo: é graças a participação na OTAN que a Lituânia e os vizinhos bálticos não correm maiores riscos de serem ameaçados com eventuais iniciativas imperialistas da Rússia (a Ucrânia, por exemplo, não é da OTAN).
Todo esse contexto geopolítico estava na cabeça do perplexo professor-geógrafo? Seguramente que sim, assim como na cabeça do realizador, Karolis Kaupinis. Viver na Lituânia é um exercício permanente de sobrevivência. Mesmo a ideia de migração em massa de milhões de pessoas não é inteiramente descabida: embora de difícil materialização, podia ser uma opção. Deslocamentos massivos eram objetos de desejo em outras paragens: sabe-se que Hitler, em seus delírios antissemitas, imaginou realocar judeus de todo o mundo na ilha de Madagascar. As potências coloniais, em escalas distintas, eram contumazes promotoras de transferências forçadas de populações. Mas ninguém chegou a propor fuga em massa de um país. Individualmente, entretanto, aconteceu: diante de um quadro de tanta instabilidade como esse que afetou a Lituânia, muitos lituanos emigraram por conta própria, inclusive para o Brasil (nos Estados Unidos, o cineasta Jonas Mekas foi um ilustre representante da colônia lituana).