Navios de Terra
Imensidão Azul
Por Jorge Cruz
Mostra Sesc de Cinema 2019
“Navios de Terra” se ancora em um segmento muito bonito de união entre artes visuais e cinema. No seu caso, contudo, a realizadora mineira Simone Cortezão adiciona à narrativa ficcional uma dramatização que afasta o tom mais poético, visto em obras como “No Interior do Alabama: A Vida em Hale County”. Uma condução do espectador na letargia e madorna de uma longa viagem de navio. Esse questionamento de razão da existência, trazida por essa produção na 3ª Mostra Sesc de Cinema lembra um pouco nosso comentário sobre “Campo”, documentário português assistido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Cortezão, entretanto, não aprofunda a construção imagética potente que se imagina em filmes contemplativos. A intenção de transpor toda a lentidão e melancolia sentidas por Rômulo, ex-minerador que tenta se reinventar ao aceitar embarcar para a China, é levada com seriedade, sem concessões para elementos que não seja o registro visual da viagem pincelada com algumas contações de histórias. Enquanto cineasta ela ambienta o longa-metragem nos aspectos acadêmicos de sua formação. É fundamental que continue essa sintonia de projetos. Um ótimo exercício para quem assiste ao filme é ler o artigo “O Som das Escavadeiras”, que Simone publicou nos Cadernos Benjaminianos da Universidade Federal de Minas Gerais.
É uma forma de se produzir cinema que alia o academicismo com a criatividade – não necessariamente na mesma proporção. Ao ser visto como mercado, talvez o conteúdo audiovisual extraído dessa obra se revele inabsorvível, mesmo para os representantes de uma cinefilia que aceita o cinema das intenções, aquele que trilha os rumos do sensorial mais do que qualquer coisa. Contudo, a produção nacional tem observado que beber dessa fonte é importante para que a arte se apresente como elemento multidisciplinar. Um longa-metragem como esse pode não encontrar um nicho facilmente determinável, já que não se assume regionalista, representativo ou abraça qualquer outra vertente com firmeza. Está mais para a vinculação da trajetória da realizadora ao produto final em si, sendo o filme um dos elementos de um arcabouço de pesquisas e experiências bem mais complexo.
Partindo de um desejo provocativo de tratar do intercâmbio cultura Brasil-China, “Navios de Terra” utiliza como argumento uma montanha que está sendo transferida aos poucos de um país a outro. Essa missão, que se originou há alguns anos, são compartilhadas pelos tripulantes da embarcação quase como um elemento de sua ancestralidade. Mesmo que optasse por permanecer fiel ao realismo, o efeito prático das interações humanas em um ambiente como esse seria o mesmo. É curioso que a vida de quem vive embarcado se revele quase sempre um teste de paciência e de reflexão, da mesma maneira que astronautas em suas missões.
Esse confinamento na imensidão torna os mais emocionantes trabalho na teoria em rotinas bem enfadonhas a serem representadas. Ao inserir a ficcionalidade em uma obra que flerta com o documental, Cortezão consegue dimensionar com mais exatidão a trajetória aflitiva de quem passa semanas em alto mar. Algo que não seria tão eficiente na proposta de ligar a câmera para colher depoimentos de forma direta, eis que tiraria daquelas pessoas as condições normais de temperatura e pressão.
Rômulo se torna um protagonista mais interessante no trecho final, quando sua melancolia se transporta para a terra firme e vemos um personagem que parece se sentir sem raízes. É quando o ator Rômulo Braga consegue extrair uma camada mais sólida do viajante, fazendo o roteiro de Cortezão, de poucos diálogos, uma aspecto positivo da obra. Aliás, na Mostra do Filme Livre de 2016, um curta-metragem da diretora, “Subsolos”, foi mencionado aqui no Vertentes do Cinema justamente por personificar o silêncio como discurso. Usar o julgamento por vezes cruel por destacar verbetes como “gostar” e “não gostar” na sentença definitiva é não permitir que obras como “Navios de Terra” crie diálogos consigo e outros espectadores. No calor de uma mostra de cinema, que convoca tanto regionalismo em produções tão diferentes entre si, é provável que o longa-metragem sofra o peso do efeito comparativo. Ainda mais em uma régua de escala do cinema não experimental que, mesmo maleável, possui limites até para os mais permissivistas. Mesmo assim, é um produto que não merece sair da cabeça tão rapidamente – devendo nos abandonar com a mesma letargia com a qual Simone Cortezão nos incute. Uma obra que urge ao público olhar para a periferia do que é mostrado.