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Napoleão

Um filme em potencial

Por Pedro Sales

Napoleão

Um dos clássicos de Ridley Scott, “Blade Runner” (1982), é conhecido pelas várias versões lançadas ao longo dos anos. Até chegar à versão definitiva, com a assinatura do cineasta, foram ao todo sete cortes diferentes. O mesmo também se deu com “Cruzada” (2005), um filme que quando lançado foi prontamente achincalhado pela mídia e que só conseguiu um olhar mais atencioso após o lançamento de uma versão do diretor, estendida e melhor estruturada. Aparentemente, o mais novo longa do realizador, “Napoleão” se tornará mais um no panteão das versões do diretor de Ridley Scott. Com 2h40, a intenção do realizador era lançar uma versão de 4h, o que será feito na plataforma de streaming Apple TV+, produtora do longa.

Mesmo com uma duração elevada para os padrões hollywoodianos, o principal problema de “Napoleão” é jamais fazer justiça ao seu retratado nesse período, algo que o próprio diretor, de certa maneira sabe. Primeiramente, já é muito difícil condensar a França de 1793 a 1821 no cinema em um período tão curto – não é por acaso que o “Napoleão” (1927), de Abel Gance, tem mais de 5h. E, além disso, o recorte é extremamente importante para se ter noção do que “fica e do que sai” nesse processo. A figura de Napoleão, portanto, assim como o filme no geral, está mutilada. Scott é incapaz de explorar a profundidade do líder político, da importância na Europa das Guerras Napoleônicas e da expansão francesa. Existem muitas lacunas no longa, não só históricas, mas muitas vezes dramáticas e narrativas, o que causa ao espectador uma sensação de suspensão. Personagens sem desfecho e muitas pontas soltas.

O filme se inicia em 1793 com a decapitação da rainha consorte Maria Antonieta, enquanto um jovem Napoleão (Joaquin Phoenix) observa o fim da monarquia e do regime absolutista, pelo menos por ora. Imprecisões históricas à parte, a obra se envereda pela ascensão do general em imperador, assim como foca no aspecto pessoal do líder, em especial seu relacionamento com Josefina (Vanessa Kirby). O longa, portanto, tenta trabalhar a obra em um tom épico e ao mesmo tempo íntimo, o que nem sempre é bem articulado. Em alguns momentos, inclusive, parecem filmes diferentes, sobretudo pela direção e montagem. Um filme focado nos feitos militares e outro no drama pessoal de conceber um herdeiro ao trono francês.

Apesar da estrutura mutilada em razão do corte para exibição nos cinemas, “Napoleão” ainda se destaca em alguns aspectos. A atuação de Kirby, por exemplo, mostra uma mulher independente que aos poucos vai sendo engolida pelo poder político e patriarcal napoleônico. Já Phoenix, por outro lado, não tem amplitude dramática alguma. O personagem termina como começa, com um rosto fechado e maquinando estratégias em sua cabeça. Algo interessante de Scott na relação dos dois é esvaziar qualquer sensualidade de Josefina e Napoleão. O sexo é filmado como uma obrigação cujo resultado seria um herdeiro. O romance só é alcançado por meio de uma narração epistolar em que cada um diz seus sentimentos, quase nunca demonstrados.

Aliada à atuação de Kirby, o figurino e a direção e arte se destacam com muita facilidade. O cuidado da produção e até mesmo o investimento empregado no filme são por si só louváveis, afinal obras históricas em Hollywood parecem estar em um ocaso se comparadas ao investimento para outros gêneros. Em relação à fotografia, o colaborador frequente de Ridley Scott, Dariusz Wolski, opta por uma palidez tonal quase onipresente, principalmente nas cenas de guerra, onde tudo possui um aspecto azulado. Não há vivacidade alguma, a França de Scott é fria, até as cores da bandeira se apresentam empalidecidas. O contraste com o tom azulado se dá quase sempre com o uso do amarelo e laranja, seja em um ambiente que é mais quente, como o Egito, ou uma casa com velas. Dessa forma, a fotografia é ambivalente, ou quente ou fria, não há meio termo quanto a isso.

Napoleão” é um filme em potencial. Seria injusto apontá-lo como um desastre total, porque não é. A montagem, que tenta sintetizar quase 30 anos de história e sabe se lá quantas horas de filmagem, é claramente desconexa com aparições e desaparecimentos repentinos. Além disso, a estrutura se torna elíptica não só narrativamente, mas historicamente. Caso o espectador não tenha um conhecimento aprofundado da Era Napoleônica e de Revolução Francesa, com certeza se perderá. Jacobinos e girondinos sequer são contextualizados, e as cenas de revolução e golpe carecem de uma justificativa. Enquanto a política por trás não é tão aprofundada, as cenas de guerra finalmente fazem justiça ao retratado com crueza, grafismo e muito sangue. Esse filme de Ridley Scott e sua incompletude alimentam ainda mais a imaginação de como seria a história dirigida por Stanley Kubrick, que planejou filmar tal história. Em comparação à carreira recente do cineasta, a adaptação da vida do imperador está mais para “Casa Gucci” do que para “O Último Duelo“. Resta esperar uma nova versão que não esteja mutilada, inconsistente e desconexa.

3 Nota do Crítico 5 1

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