
Entrevista
A coordenadora geral e diretora da Universo Produção, Raquel Hallak, conta todas as novidades sobre a Mostra de Tiradentes 2026
Por Fabricio Duque
Raquel Hallak é Diretora e Coordenadora Geral da Universo Produção, empresa que fundou e que se tornou referência na criação de eventos culturais de grande escala. Atua como produtora executiva, curadora e gestora, focando na conexão entre arte, mercado e políticas públicas. É também a idealizadora e diretora do Cinema Sem Fronteiras, uma das maiores plataformas de difusão cinematográfica do país, que engloba três dos festivais mais importantes do calendário brasileiro: a Mostra de Cinema de Tiradentes, focada no cinema contemporâneo e autoral (o maior evento do cinema brasileiro independente); o CineOP (Mostra de Cinema de Ouro Preto), que é o único festival dedicado à preservação, memória e educação no audiovisual; e, o não menos importante da “santíssima trindade mineira”, CineBH (de Belo Horizonte), este voltado para o mercado internacional e coproduções. Raquel é também uma das articuladoras do Fórum de Tiradentes e trabalha diretamente no diálogo entre cineastas e órgãos governamentais para a construção de diretrizes e leis de fomento ao setor. Sua “marca registrada” é a defesa da “democratização do acesso” e da “formação de público”. Sob sua gestão, todos os eventos que coordena mantêm programação inteiramente gratuita, unindo exibição de filmes, debates e oficinas de capacitação profissional.
Para a 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que ocorre de 23 a 31 de janeiro de 2026, conversei com Raquel Hallak, em exclusividade para o Vertentes do Cinema. O evento é o primeiro grande festival do calendário audiovisual brasileiro do ano. A edição de 2026 tem como conceito curatorial a “Soberania Imaginativa”, que tem a atriz, diretora e roteirista Karine Teles como a grande homenageada desta edição. Raquel Hallak sempre destacou as atividades formativas como um dos pilares da Mostra de Cinema de Tiradentes. Em 2026, o programa oferece 16 atividades, incluindo oficinas, workshops e masterclasses, totalizando mais de 500 vagas. O evento sedia a quarta edição do fórum voltado para debates sobre políticas públicas e o futuro do audiovisual no Brasil, ocorrendo entre 24 e 28 de janeiro.
Confira abaixo o que Raquel Hallak disse sobre as novidades da edição 2026 da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes!
A ENTREVISTA
FABRICIO DUQUE: Como foi pensar a edição 2026 da Mostra Tiradentes?
RAQUEL HALLAK: Cada edição da Mostra Tiradentes é pensada a partir do tempo presente. Trata-se de um exercício constante de escuta e observação do momento que o cinema brasileiro atravessa. Partimos de inquietações estéticas, políticas e dos modos de produção para construir uma edição que dialogue com o agora e, ao mesmo tempo, provoque reflexões capazes de projetar caminhos possíveis para o futuro. A edição de 2026 não foge a esse princípio. Contamos com a atuação de uma equipe curatorial composta por dez profissionais, sob a coordenação de Francis Vogner dos Reis, que, em conexão e diálogo com a coordenação geral do evento e a equipe de produção, constroem um processo coletivo atento às transformações do audiovisual brasileiro e às urgências do Brasil atual.
FD: O que nós do Vertentes do Cinema e o público podem esperar da Mostra de Tiradentes 2026? O que foi essencial?
RH: O público e o Vertentes do Cinema podem esperar uma Mostra que reafirma seu papel como um espaço central de encontro, reflexão, formação, exibição e difusão do cinema brasileiro contemporâneo. A edição de 2026 mantém como essência a valorização da diversidade de narrativas, estéticas e modos de produção, revelando um cinema que pensa o Brasil a partir de suas múltiplas realidades, afetos e contradições.
Preservamos o caráter aberto, plural e formativo da Mostra, que vai muito além da exibição de filmes. A programação reúne 140 filmes em pré-estreias, mostras temáticas e competitivas e se expande para debates, encontros com os filmes, atividades formativas e espaços de articulação do setor audiovisual, criando um ambiente vivo de troca entre realizadores, profissionais, pesquisadores e o público.
Também fortalecemos a relação da Mostra com a cidade de Tiradentes, transformando seus espaços em territórios de circulação de ideias, experiências e expressões artísticas, além de integrar o cinema a outras linguagens com oferta de atrações artísticas – shows, lançamento de livros, exposições, rodas de conversa, teatro de rua para todas as idades. Em 2026, a Mostra segue comprometida com a democratização do acesso à cultura, com todas as atividades gratuitas, e com a construção coletiva de um cinema brasileiro diverso, inquieto e profundamente conectado ao seu tempo.
FD: E qual a importância de homenagear Karine Teles? Já podemos saber se terão outras homenagens (risos)?
RH: Homenagear Karine Teles é reconhecer uma artista que construiu uma trajetória singular no audiovisual brasileiro, capaz de transitar com enorme potência entre o cinema autoral e produções de grande alcance popular. Suas personagens carregam uma densidade humana muito forte e dialogam diretamente com o imaginário e as contradições do Brasil contemporâneo.
Além disso, sua história se cruza com a da Mostra Tiradentes desde Riscado (2011), exibido na Mostra Aurora, reafirmando seu compromisso com um cinema inventivo e exigente. Karine faz uma síntese rara entre rigor artístico e comunicação com o público, o que torna essa homenagem especialmente significativa.
Nesta edição, não teremos outras homenagens, mas vamos celebrar e fazer um destaca especial para o cineasta Júlio Bressane (já foi homenageado na 5ª edição do evento – 2022) que estará presente no evento para a estreia do seu filme “O Fantasma da Ópera”, participa de roda de conversa e completa 80 anos de vida em fevereiro.
FD: Sobre a temática: como o tema de 2026 conversa com o cinema brasileiro? E como Tiradentes vê a importância dessa temática para o futuro e o presente do cinema, especialmente o independente?
RH: A temática Soberania Imaginativa nasce de um diálogo direto com o momento que o cinema brasileiro vive hoje. Ao longo das últimas duas décadas, especialmente no campo independente, o cinema produziu uma renovação profunda de práticas, linguagens e modos de criação, revelando uma imaginação diversa, potente e ainda pouco reconhecida em toda a sua dimensão. Falar em soberania, nesse contexto, é pensar a autonomia do cinema brasileiro não apenas do ponto de vista econômico ou político, mas sobretudo simbólico e criativo.
Para a Mostra Tiradentes, essa temática é fundamental porque propõe novas perguntas para circunstâncias novas. Em um cenário de retomada das políticas públicas, de urgência na regulação das plataformas e de redesenho do audiovisual global, o cinema brasileiro precisa se apropriar de suas próprias invenções, territórios e imaginários. A Soberania Imaginativa aponta para a importância de garantir continuidade a esse cinema plural, ousado e independente, entendendo-o como um laboratório de ideias, formas e possibilidades capaz de pensar o Brasil e seus futuros a partir de uma imaginação livre e soberana.
FD: Por último, como Tiradentes vê a Mostra de Tiradentes hoje? O que o festival fez para integrar ainda mais a cidade?
RH: A Mostra Tiradentes se vê como parte viva da cidade. Foi o evento precursor na descoberta da vocação turística de Tiradentes, atraindo investimentos, contribuindo de forma decisiva para projetar a cidade e inseri-la no roteiro turístico nacional e internacional, além de impulsionar a geração de empregos e renda ao longo de quase três décadas.
Desde sua origem, a Mostra construiu uma relação contínua de troca com a cidade, entendendo o território não apenas como cenário, mas como agente fundamental da experiência do evento. A programação gratuita, pensada para todas as idades, a ocupação das ruas, praças e espaços históricos, as sessões de cinema, as atividades formativas e a valorização dos artistas e saberes locais — como na Mostra Valores — fazem do festival um acontecimento verdadeiramente compartilhado com a população.
Integrar a cidade sempre foi uma prioridade. A Mostra investe no diálogo permanente com moradores, comerciantes e instituições locais, e na criação de uma programação que conecta o cinema a outras linguagens artísticas, fortalecendo o sentimento de pertencimento. A Mostra Tiradentes é, acima de tudo, um encontro entre cinema, cidade e pessoas, construído coletivamente a cada edição.
FD: Muito obrigado!
Acompanhe a cobertura completa, diária e em tempo real do vertenteiro Francisco Carbone que retorna ao ninho do Vertentes do Cinema!



