Meu Semba

Manifesto e ativismo

Por Vitor Velloso

Assistido online no Festival de Roterdã 2026

Meu Semba

Existe uma parcela das produções cinematográficas que procura resgatar um espírito rebelde de outrora, contrastando com uma certa inércia estética da filmografia contemporânea, constantemente ancorada em um certo consenso estabelecido por festivais de cinema, que priorizam um rigor formal, de bases referenciais explícitas, em detrimento de um discurso político, social e econômico mais forte. Aliás, esse caso é bastante visto na produção brasileira, que parece se escorar em um modelo funcional e de sucesso que não consegue se distanciar de uma padronização bastante limitante, em especial quando o assunto é a reflexão de uma base histórica, estrutural e cultural, como é o caso dos “filhos de Bacurau”: aqueles filmes que tentam traduzir um certo mal-estar do Sul Global, articulando algumas ideias interessantes, mas sem nunca tentar atingir os pontos mais críticos de suas temáticas, ou recorrendo a exterioridades a fim de esquematizar as angústias de forma paralela, nunca objetiva.

“Meu Semba”, de Hugo Salvaterra, posiciona-se em um lugar de rebeldia entre esses dois universos, que não precisam ser necessariamente antagônicos, mas que entram em choque quando a perspectiva e a repercussão dos festivais de cinema encontram o público nativo. A produção angolana coloca em cena uma série de temáticas e debates, tensionando um campo de reivindicações e de necessidade de afirmação diante da situação contemporânea e histórica, a partir de uma compreensão das diferentes formas de manifestação política que se popularizaram nos últimos anos.

Ao estabelecer seu ponto de discurso em uma representação musicalizada, com breves flertes com o musical, o filme assume uma postura combativa e resgata um certo espírito modernista, se podemos seguir nessa direção. Constrói-se como uma sinfonia urbana calcada no rap, de maneira crua e direta, em constante movimento, trazendo Luanda como paisagem e personagem dessa estrutura pulsante.

Funcionando majoritariamente como um manifesto, mas ancorado em uma base documental, o filme acompanha X e seus irmãos, Lelé e Maria, em busca de reconhecimento e visibilidade entre seus pares, projetando-se em um espaço simbólico no qual os “70% da força de trabalho” permanecem sistematicamente invisibilizados. É na poesia de X que o filme condensa boa parte das contradições que atravessam a narrativa, dos conflitos com o “sistema”, entendido de forma ampla e difusa, à formação educacional e ao referencial religioso que moldam esses personagens. Suas reflexões líricas sobre o conflito de classes estruturam o discurso do longa.

Escreve X: “Eles nos chamam de mercado negro. Nós, 70% da força de trabalho. A empregada escravizada que limpa suas casas. O corpo eloquente e presente que cria seus filhos. O motorista ágil que dirige seus carros. Uma catarse animal em cada passo de kuduro, e a dor fica esquecida no subwoofer da festa”. As palavras reverberam simultaneamente como denúncia e autoafirmação. Nelas há a consciência de uma engrenagem social que se sustenta sobre esses corpos, mas que insiste em relegá-los à margem. Ao mesmo tempo, emerge a percepção de que a catarse pode operar em dois sentidos, como gesto de liberação e como mecanismo de anestesia, capaz de diluir a dor na vibração da música.

“Meu Semba” constrói, assim, uma ode às classes trabalhadoras de Luanda, articulando o desejo individual de ascensão artística a uma ambição coletiva de reconhecimento. Porém, há uma aproximação um tanto cansativa com o formato de videoclipe, que nos primeiros minutos funciona pela “novidade”, mas que gera um desgaste estético rapidamente, pois o filme tem dificuldade de transformar esse movimento ou iminência performática, quase sempre com um plano de encerramento ou estopim, que não chega (ou não se permite) um desprendimento mais padronizado das formas cinematográficas que os festivais de cinema estabeleceram como consenso estético nos últimos anos.

É nesse ativismo rebelde que “Meu Semba” encontra seu gesto estético de resistência e de existência. Existe um discurso sobre orgulho, precariedade e voz coletiva, que encontra nessa sinfonia entre a cidade e a música um espaço para proliferar essa rebeldia, sempre muito bem-vinda em tempos tão quadrados, mas que ainda tem dificuldade em compreender os lugares de escape que sua narrativa possui. Assim, torna-se um manifesto proto-modernista em um tempo onde há uma maior vereda de interferências exteriores, criando um produto que abarca algumas de suas contradições internas, sem conseguir olhar de forma tão crítica para suas próprias incongruências.

3 Nota do Crítico 5 1

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