Mostra Um Curta Por Dia 2025

Inventário de Imagens Perdidas

Antes da imagem, há o discurso

Por Paula Hong

Durante a Mostra de São Paulo 2023

Inventário de Imagens Perdidas

A iminência de cenários que ameaçam destruição suscita reflexões em torno da importância das criações dos homens. Uma delas é, inevitavelmente, a arte. Em “Inventário de imagens perdidas”, o diretor Gustavo Galvão concentra suas reflexões sobre o cinema, a abundância das imagens e o esvaziamento do significado delas na indústria cinematográfica. Elas estão ancoradas no pano de fundo político brasileiro dominado por um governo ultradireitista devastador — soa familiar, não? — e nele acompanhamos as personificações da resistência em duas mulheres, interpretadas por Maria Galant e Larissa Mauro, que buscam abrigo numa casa de um cineasta esquecido (Roberto Oliveira).

Apesar de embaçadas, as primeiras cenas com fogo já suscitam o sentimento de assolamento. Na demorada introdução, cerca de 18 minutos do filme, Galvão vai gradualmente trazendo uma nitidez narrativa para localizar o espectador no contexto político brasileiro, cujo projeto é claro: a planificação de todas as instâncias — cultural, política, religiosa, econômica, social — do Brasil.

Dentro de um carro a perspectiva subjetiva da câmera parece procurar alguém ou tomar precaução na camuflagem da mata alta. Somos passageiros sem escolha, ouvindo do rádio do carro atualizações de pronunciamentos oficiais do governo e as da resistência. E cercados por nada, a ambiguidade da câmera coloca em evidência possibilidade de sermos atacados (tanto pelo governo em voga quanto pela resistência), o que alimenta a tensão elaborada por mortes isoladas dentro da mata.

Um dos pontos que assegura a longa introdução de “Inventário de imagens perdidas” reside em como a tensa quietude é quebrada pelo encontro de Maria com o esquecido cineasta. Seu esquecimento é estendido para o cinema. Com isso, há um bate-volta nos diálogos de carga intensa e repleta de reflexões em torno dos propósitos da área e de sua matéria-prima, a imagem. A casa, em harmoniosa decadência com o Brasil do filme e, em certo sentido, ao da nossa realidade, abriga Maria. É evidente que o diretor fala por intermédio de seus personagens, pois é nessa breve estadia que Galvão constrói um discurso que derrama a decepção com os rumos que o cinema tem tomado.  

Não é e nem será a última vez que um cineasta se utiliza de cenários de destruição para retratar o pessimismo e a insatisfação para com o estado das coisas. Como exemplo, na sua longa resposta política ao cinema comercial francês do século XX, Marguerite Duras apontava e torcia para um cinema que caminhava para a perdição. Em seus filmes, a escritora-cineasta livrava a imagem do encargo de reter o peso de representar tudo. Ao fazer isso, ela questionava o poder da imagem ao ponto de fazer um filme em que quase não havia imagem, apenas texto, porque antes da imagem, há um discurso, há um texto.

Galvão faz um caminho similar quando expõe diálogos carregados de discurso questionadores sobre o cinema contemporâneo, sobre a ênfase que dá na procura da imagem, beirando a uma certa obsessão com o encargo dela (neste ponto, ao contrário de Duras). Tendo em vista a sua potência, filmes como “Inventário de imagens perdidas” são importantes por questionarem o estado contemporâneo do que nos permeia antes de transportá-los para obras cinematográficas — ou, ainda, o faz enquanto realiza suas obras, localizando inquietações no espaço-tempo “real” e transferindo-as para o diegético. As imagens perdidas também significam o imaginário que vislumbra o que será do Brasil, no sentido: qual é o Brasil que queremos ter? qual é o Brasil em que queremos viver? por qual Brasil estamos lutando?           

As imagens do fogo queimando no começo do filme apontam para uma catástrofe iminente, mas também para tempos de renovação. Muito à luz do projeto de cinema de Duras com gestos atrelados a um fazer artístico de motivações estreitas a diálogos de destruição e renovação para um novo tipo de cinema. Uma pena que a destruição torna-se também vilã na inexperiência brasileira de salvaguarda da sua própria história e, por extensão, memória. Não à toa o diretor usa registros da última queimada que aconteceu na Cinemateca Brasileira. 

Por fim, “Inventário de imagens perdidas” contém momentos de extrema calmaria e outros de um frenesi de pensamentos — ambos igualmente hipnotizantes e dispersantes. O diretor não faz uso de grandes elaborações técnicas para realizar a obra, se assegurando em efeitos práticos, fazendo uso cru das belas das locações e extraindo ao máximo do elenco enxuto. A fotografia detém de um efeito que nos mantém estranhamente familiarizados e afastados da história retratada, como se fosse uma realidade alternativa caso as últimas eleições tivessem outro resultado, mudando o curso da história.

3 Nota do Crítico 5 1

Deixe uma resposta