Honestino
A construção da verdade entre encenação e registro
Por Clarissa Kuschnir
Festival do Rio 2025; Mostra de SP 2025; Fest Aruanda 2025
Eu já admirava o trabalho do cineasta e documentarista Aurélio Michiles (“O Cineasta da Selva”). Quando assisti online “Segredos de Putumayo” durante a pandemia no É Tudo Verdade, torci para que ele levasse o prêmio principal. Infelizmente não aconteceu (vai entender cabeça de júri). Mas o filme ficou entre os melhores que eu assisti, naquele ano pandêmico. Agora, Michiles retorna com “Honestino”, seu mais novo longa, que me surpreendeu novamente. A trajetória do estudante goiano Honestino Magalhães é um dos inúmeros e tristes capítulos da nossa história, durante a Ditadura Militar. O ano era 1966, quando o então estudante de geologia da UNB (Universidade de Brasília) e também líder e presidente do diretório acadêmico de seu curso, foi preso pela primeira vez. E depois deste episódio foram mais outras prisões, perseguições até ser expulso da universidade, viver clandestinamente em São Paulo com sua companheira, sendo ali por um tempo, dirigente da UNE (União Nacional dos Estudantes). Ao se mudar para o Rio de Janeiro continuou sofrendo perseguição até ser preso pela Marinha em 1973 aos 26 anos de idade, e nunca mais retornar. Apenas em outubro de 2013 é que foi reconhecida a morte do estudante, que foi uma das importantes figuras de luta contra a ditadura também a ser investigado, pela Comissão da Verdade.
Para contar esta história, o diretor escolheu um formato híbrido, que vai de depoimentos de amigos (Jorge Bodanzky, Juliana Guimaraes, Amino Afonso, Franklin Martins e o próprio Michiles, que o conhecia desde jovem) família e historiadores, trazendo ricos materiais de arquivo mesclados com passagens da vida do jovem, encenadas por Bruno Gagliasso, que encarnou muito bem, o papel de Honestino. Aliás, se olhar uma foto original do Honestino, vê se uma boa semelhança, entre os dois. E como se sabe, Bruno Gagliasso é um dos artistas mais engajados politicamente de sua geração. Ao ser questionado pelo Vertentes durante o Fest Aruanda sobre seu papel como Honestino, ele disse que esse filme é um grande alerta e aviso de que a vitória não está ganha e que temos que estar lutando o tempo todo por democracia, liberdade e educação, sem deixar a história se apagar, sem deixar de prestar homenagem a esta figura tão importante. E afirmou que assim que recebeu o projeto de Michiles ele aceitou sem pensar, pois é preciso falar sobre essas pessoas que fizeram a diferença, mudaram o curso da história e que tentam apagar. E realmente “Honestino” traz para o espectador um retrato impactante das perseguições políticas dos militares. É uma obra que abre os olhos até dos últimos anos, em que o Brasil parece ter regredido com parte da população de volta às ruas para pedir intervenção militar, ajoelhar para pneu e rezar em frente aos quartéis. Ou seja, uma alienação total, em pleno século XXI. E a obra de Michiles se complementa com uma montagem primorosa de André Finotti que inclusive levou o Troféu Redentor da categoria, no Festival do Rio e Fest Aruanda (deste ano), além dos prêmios no festival paraibano da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), júri popular e Troféu Vladimir Carvalho(merecidamente) de melhor documentário.
E eu repito aqui, “Honestino” é para mim um daqueles filmes que me surpreenderam, tanto pelo aspecto de direção e roteiro (porque tudo é muito bem amarrado) quanto na parte técnica, com uma bela fotografia de André Lorenz Michiles(filho do diretor) e reconstituição de locais em que Honestino esteve. Entre depoimentos, material de arquivos se vê o quanto Honestino era muito querido e lutava por um país mais justo e libertário, em meio ao caos da ditadura. Em muitas cenas, não tem como conter a emoção e o coração fica apertado ao saber das passagens do protagonista pela prisão e inconstantes perseguições, de uma pessoa que amava a vida, a família e os amigos. A história poderia ser diferente? Talvez sim, pois ele teve a chance de sair do país, assim como ocorreu com vários de seus companheiros, mas para ele era no Brasil que ele tinha que lutar, mesmo que isto custasse sua vida. E assim foi morrendo como um herói de resistência da Ditadura que só pregava para a juventude, um futuro de liberdade e esperança para o Brasil. É um filme necessário!


