Guerreiras do K-Pop

Produto de sucesso

Por Vitor Velloso

Guerreiras do K-Pop

Um dos maiores eventos do ano de 2025 no cinema industrial, “Guerreiras do K-Pop” chega como um dos favoritos na 98ª edição do Oscar, concorrendo nas categorias de melhor canção original e melhor animação. Lançado pela Netflix, o projeto teve grande repercussão no ano passado, conquistando uma ampla base de espectadores, fãs e potenciais consumidores de diversos produtos. Desde seu lançamento, o filme se tornou um fenômeno de audiência e consumo cultural, gerando discussões sobre a indústria do K-POP e ampliando seu impacto para além da tela, influenciando o comportamento de fãs e a criação de produtos derivados.

Dirigido por Maggie Kang e Chris Appelhans, o filme apresenta uma narrativa relativamente simples, funcionando mais por estímulos visuais e ideias esteticamente atraentes do que por um desenvolvimento dramático robusto. Isso se percebe nos números musicais, que ilustram questões dramáticas, e nas sequências de batalha, que mantêm um ritmo fluido em sintonia com as músicas. Cada coreografia e cada escolha de cor ou figurino reforçam o estilo visual do K-POP, mas pouco contribuem para o aprofundamento da trama ou das personagens.

De certa forma, “Guerreiras do K-Pop” é um projeto voltado principalmente para aspectos comerciais, possíveis sequências, produtos derivados e estímulos rápidos, sem grande atenção ao desenvolvimento dramático. A narrativa se apoia em uma linha simplória de bem contra o mal, na qual a música poderia salvar o mundo de demônios cruéis. Essa base ganha alguma camada extra com a revelação de que uma das integrantes do grupo protagonista é meio-demônia, mas a ideia em si não é original, retomando diversos clichês que funcionam como estratégias pragmáticas para manter o público engajado.

O grande embate do filme ocorre entre a banda “do bem”, formada pelas meninas, e a banda “do mal”, formada pelos meninos, os antagonistas demoníacos. Há uma tentativa de construir um romance a partir desses confrontos, mas ele se mostra direto e superficial, funcionando principalmente como apoio à promoção do K-Pop e à idealização das personagens como padrões estéticos e comportamentais. A narrativa reforça ideias já estabelecidas pela indústria, desde a lógica de mercado de exportação até o comportamento dos fãs, mantendo romances frágeis e dramas superficiais, sem explorar nuances ou complexidades emocionais das personagens.

O filme não se preocupa em desenvolver ideias complexas, contradições ou uma visão crítica sobre o universo que aborda. Seu foco está no “espetáculo visual”, que mesmo assim não se destaca, apoiando-se em fórmulas já consagradas pelo cinema industrial. O único diferencial em relação a outras animações genéricas é o próprio K-Pop, que não é discutido ou problematizado, mas apenas apresentado como um universo já estabelecido para os espectadores.

O nível de didatismo é tão alto que o filme precisa de uma introdução na qual os fãs explicam o que mais gostam em cada integrante do grupo, para que o público consiga diferenciá-las narrativamente por categorias simples como “fofa, raivosa e meiga”. No entanto, o roteiro não oferece nada além dessas bases superficiais, tornando desnecessária essa introdução, já que as características das personagens ficam claras nos primeiros minutos de projeção.

Todo esse consenso presente em “Guerreiras do K-Pop” evidencia um fator limitante: o longa parece esperar ansiosamente por uma sequência, sem se preocupar em desenvolver plenamente sua narrativa e protagonistas, apresentando conflitos fragmentados que funcionam apenas como introdução a um universo já projetado para expansão. A dificuldade do filme está justamente em se sustentar por si só, enquanto prepara terreno para produtos futuros, curtas, sequências e outras iniciativas comerciais.

O sucesso da obra, entretanto, foi extraordinário, consolidando-se como fenômeno global tanto em streaming quanto na música. Na Netflix, tornou-se o título mais assistido da história da plataforma, acumulando mais de meio bilhão de visualizações desde a estreia, e permaneceu 25 semanas consecutivas no Top 10 da Nielsen nos Estados Unidos, feito incomum para uma animação. A trilha sonora também teve desempenho impressionante, com a canção “Golden” liderando a Billboard Hot 100 por oito semanas, enquanto outras faixas alcançaram destaque em paradas internacionais. O fenômeno não se limitou à audiência: despertou grande interesse cultural, principalmente entre fãs de K-Pop e jovens, alimentando debates sobre produtos derivados, sequências e estratégias de promoção que exploram o universo do grupo protagonista.

Apesar desse desempenho excepcional, o filme não garante excelência narrativa. Trata-se de um produto marcado por fragilidades, sustentado por estímulos rápidos e pelo fortalecimento de uma marca global transformada em fenômeno mundial. Sua grande chance no Oscar está na tradução desse sucesso comercial, embora permaneça distante do nível de outros filmes premiados que já conquistaram a estatueta, evidenciando a diferença entre popularidade e profundidade narrativa.

2 Nota do Crítico 5 1

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