Fotografação
"A pureza do que é na frente dele" ou Traição à pós-modernidade
Por Roberta Mathias
É tudo Verdade 2019
Com a experiência que tem como diretor de fotografia entre os quais estão: “São Bernardo” (1974), “Toda Nudez Será Castigada” (1975); “Lucio Flávio: O Passageiro da Agonia” (1977), “Quilombo” (1984) – mais tarde voltaremos a ele – e os mais recentes “O Xangô de Baker Street” (2002) e “Batismo de Sangue” (2007), Lauro Escorel já poderia ter feito de “Fotografação” um excelente filme sobre as relações entre a fotografia e a fotografia de cinema.
Logo no início, no entanto, o diretor, que apresentou o filme no Festival É Tudo Verdade de 2019, opta por narrar a chegada da máquina digital e suas consequentes mudanças em relação ao olhar e à (re)presentação dos brasileiros e do país. Esse já seria um segundo filme, do qual tenho certeza de que Escorel também teria muito a dizer. Em uma cena em plena Praça XV , o diretor aborda skatistas dizendo que ali, naquele mesmo local no qual tiravam selfies, há um monumento à primeira fotografia tirada na América do Sul (obviamente, com um Daguerreótipo). O espectador – no caso, eu – fica ávido por saber como Escorel irá explorar essa relação entre Pós-modernidade e chegada da Modernidade (lida como apresentação dos costumes e modos europeus no início do século XX).
É aí que o diretor decide trilhar outro caminho para “Fotografação”. Com uma pesquisa de arquivo muito bem feita nos acervos do Instituto Moreira Salles, Instituto Pierre Verger e Instituto de Estudos Brasileiros da USP e contando com um time de especialistas de peso, como Boris Kossoy, Maureen Bisilliat, Milton Guran, Matia Turazzi e Joaquim Marçal, Escorel se vê seduzido à contar a história da fotografia no país.
Não me entendam mal, o realizador prepara uma excelente aula sobre a renovação da técnica e do olhar no país até meados do século XX. Traz os grandes nomes da fotografia brasileira partindo de Marc Ferrez e, até mesmo, Mário de Andrade (mais conhecido como escritor, mas excelente fotógrafo), passando por renomados diretores de fotografia de cinema, pela Revista O Cruzeiro e a revolução iniciada por Marcel Gautherot, mas sedimentada pelo olhar de José Medeiros.
O diretor fala até mesmo dos álbuns de visitas ao Brasil, espécies de percursores dos cartões postais. Nisso, conta com a valorosa colaboração do antropólogo Milton Guran lembrando que o olhar é construído a partir de uma socialização anterior. Ou seja, ao enquadrarmos, escolhermos entre cor ou P&B, luz natural ou artificial, estamos montando a cena. Até os fotógrafos mais tomados pela paixão do momento ou, como Maureen cita no filme, tomados pela doçura, carregam consigo ideias e ideais, olhares e fixações.
É de Bissilliat também a frase que dá nome à essa crítica: “A pureza do que é na frente dele”. Será que conseguimos chegar à essa pureza? Não estamos sempre recriando as máscaras que nos foram impostas pela sociedade? Não é nesse local que nos sentimos mais seguros?
Apesar dos fotógrafos serem por excelência (em geral, sei que existem os fotógrafos experimentais, mas ainda estes não estão livres de exercitar o olhar) seres que caminham e observam, nesse caminhar e observar carregam consigo mochilas imaginárias nas quais estão contidas os lugares pelos quais já passaram, os livros que leram, os filmes que viram, as pessoas que conheceram. Ou suas próprias “miragens”, para citar novamente Bisilliat , que é inglesa, mas teve sua obra concentrada em territórios brasileiros e já viajou e observou muito essas terras.
Lauro Escorel fez uma pesquisa excelente para “Fotografação”, até mesmo porque estava em casa no mundo da fotografia, mas não conseguiu transmitir na forma e no conteúdo de seu filme o que a sinopse promete, refletir sobre ” o impacto da fotografia digital na sociedade contemporânea”.
O diretor se perde na narrativa sobre a chegada da fotografia no Brasil e não consegue sair da armadilha que ele mesmo criou, pois esse é mesmo um assunto fascinante. Como aula, o longa-metragem é excelente. Como documentário que pretende atualizar o debate sobre a fotografia digital e seus impactos, deixa à desejar.
Há ainda, outro aspecto que Guran tenta retomar em todas suas falas – aliás, os momentos mais interessantes da obra ocorrem quando o diretor não interfere na fala do interlocutor ou não deixa que isso apareça – esse aspecto essencial, como já revelei anteriormente é a capacidade do fotógrafo de criar mundos e imaginários.
Sem saber por qual trilha seguir, Escorel nos entrega uma produção que poderia resultar em três longas-metragens incríveis sobre fotografia, mas terminam em um único que decepciona justamente por suas qualidades: com uma pesquisa dessa e com esses especialistas disponíveis, era difícil fazer Escorel escorregar. Mas ele mesmo consegue fazer isso sozinho.
Uma pena para quem espera um filme que se livre da linguagem antiquada da narração e dialogue com a dinâmica fluída da fotografia digital. No entanto, quem espera por uma aula de história da fotografia brasileira, pode correr para o cinema para assistir “Fotografação”.
Observação: Como prometi no início do texto , vamos falar um pouco sobre “Quilombo”, de 1984. Ao revelar que estava receoso por conta da direção de fotografia de corpos negros, Escorel nos revela que, até aquele momento, não havia pensado nas diferentes tonalidades que uma pessoa negra pode ter. Era só esse meu comentário mesmo. Tirem as conclusões.