Feliz Aniversário em Belgrado

Microfísica do Poder

Por João Lanari Bo

Festival de Berlim 2021

Feliz Aniversário em Belgrado

Feliz Aniversário em Belgrado” – o título escolhido pelos distribuidores brasileiros agrega, provavelmente de forma involuntária, uma ironia ao filme de estreia da diretora Milica Tomovic, nascida em 1986 na capital da antiga Iugoslávia, Belgrado. A intenção foi aludir ao aniversário da jovem Minja, que comemora seus 8 anos com uma festa a fantasia, estilo “Tartarugas Ninja”, tomando ki-suco preparado em garrafas reutilizadas de Coca Cola.

O título original do filme, “Kelti”, tem como tradução “Celtas” – de acordo com a infalível Wikipedia, os Celtas “foram um conjunto de povos indo-europeus da Idade do Ferro (aprox. 1200 a.C. a 500 d.C.) que se originaram na Europa Central e se espalharam da Península Ibérica às Ilhas Britânicas e Turquia. Organizados em tribos, destacaram-se pela metalurgia do ferro, arte espiralada, druidas e sociedade guerreira com mulheres influentes”. No filme, quando os pais e parentes adultos das crianças entabularam uma discussão acalorada – regada a álcool e maconha –, um deles rebate: afinal, somos todos celtas. “Kelti”, portanto, é uma alegoria moderna para o mosaico político-cultural que era a Iugoslávia.

Corria o ano de 1993, e o país afundava em um processo de desintegração complexo e sanguinário, que atravessou toda a década após a fatídica queda do muro em Berlim, em 1989 – foi aí que surgiram Sérvia, Croácia, Bósnia e Herzegovina, Eslovênia, Montenegro, Macedônia (agora chamada de Macedônia do Norte) e Kosovo. Não é necessário muito esforço para imaginar o caos que se avizinhava para os iugoslavos, obrigados a confrontar, literalmente, a fragmentação da identidade nacional a que estavam acostumados durante o período comunista.

Feliz Aniversário em Belgrado” toma como ponto de partida um conjunto tão vasto e antigo de tribos para apresentar quem são os personagens que comparecem à festa de Minja. A mãe, Marijana (Dubravka Kovjanic), que escolheu o tema “Ninja” da festa – uma franquia tão popular na época que toda a turma sabia cantar a música em inglês – tem um comportamento que psicanalistas apressados chamariam de sexual starving. O marido, Otac (Stefan Trifunovic), perdeu interesse na mulher há um ano, depois que ela mudou o corte do cabelo para um feitio curto e, a seus olhos, feio. Ele é motorista de táxi, extremamente afetivo com a filha Minja, conservador e retraído.

A diegese do filme, como dizem os especialistas, emula o tempo real da festa, acrescida de um breve epílogo da manhã seguinte. Sua avó Saveta (Olga Odanovic) tenta comprar manteiga para o bolo de aniversário, mas, assustada com o preço de 40 milhões de dinares, opta por usar margarina. No plano econômico, é óbvio que a desintegração política levou a sucessivas crises, inclusive inflacionárias. Otac, que não tem dinheiro para comprar o cachorro prometido à filha, pega emprestado um vira-lata de três patas da família vizinha. Enquanto as crianças se divertem pela casa, os adultos, uma mistura de outros pais, tio e tia gays, amigos e parentes – como o anarco-punk falso adolescente e a alcoólatra que quer engravidar de alguém, desde que não seja croata – se reúnem na cozinha para discutir política, arte e o futuro do país.

Milica Tomovic incorpora esse imaginário familiar, algo que experimentou por conta própria, como um estado limiar de ruptura, mas vivido com afeto e intensidade. Na guerra civil que se seguiu, muitas famílias vivenciaram rupturas dramáticas, já que contingentes populacionais croatas residiam na Sérvia, e vice-versa, sem falar na Bósnia e Herzegovina, um conjunto que incluía essas etnias e uma variante religiosa – a maioria da população é muçulmana, ao contrário dos cristãos ortodoxos sérvios e católocos croatas. “Quo vadis, Aida” é um potente filme que retratou o genocídio de Srebrenica, ocorrido entre 11 a 25 de julho de 1995 na Bósnia, quando 8 mil e 373 bósnios muçulmanos, de adolescentes a idosos, foram executados por milicianos apoiados pela Sérvia.

Feliz Aniversário em Belgrado” trata, em última análise, de como as pessoas levam suas vidas em uma zona de guerra em gestação. Instintos vitais vêm à tona, sexo e sobrevivência, mas também alguma solidariedade. Marijana condensa tudo isso, desde a primeira cena em que se masturba – filmada com sutileza, com a câmera subindo entre suas pernas lenta e detalhadamente, e depois pairando sugestivamente entre os lençóis.

Anfitriã impecável e amargurada, pelo desinteresse do marido, ela transita entre todos os diferentes grupos com suficiente delicadeza para sustentar a harmonia da festa, apesar dos incidentes eventuais, como o protagonizado pela irmã lésbica, PhD em Shakespeare.

Marijana, ao fim e ao cabo, é quem corporifica a catarse final.

3 Nota do Crítico 5 1

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