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Fausto Fawcett Na Cabeça

Cronista do inusitado

Por Pedro Sales

Fausto Fawcett Na Cabeça

“Louraça Belzebu, Louraça Lúcifer, Louraça Satanás”, são com estes versos que Fausto Fawcett caracteriza sua mais célebre criação, Kátia Flávia. Ao invocar o demônio três vezes, o artista demonstra seu tom provocativo e transgressor frente à normalidade burguesa. Talvez não tão famoso ou onipresente nas paradas de sucesso quanto outros cantores de rock dos anos 80, como Léo Jaime, Lulu Santos e Lobão, mas, certamente, mais intrigante, Fausto Fawcett é uma figura única. Neste sentido, o documentário “Fausto Fawcett Na Cabeça” se vale muito bem da idiossincrasia de seu representado. O diretor Victor Lopez mergulha nas diversas facetas do cantor, compositor, escritor, filósofo e amante de Copacabana, ultrapassa o sucesso meteórico trazido pela Godiva do Irajá e traz a atualização do pensamento fawcettiano à contemporaneidade.

Logo na introdução, o cantor diz que as ideias para as músicas muitas vezes surgem por meio do contato com outras pessoas nas ruas de Copacabana. Uma experiência antropológica, uma reportagem, ele explica. Assim, Fausto Fawcett é um cronista do inusitado, busca no cotidiano aquilo que desafia a normalidade das coisas. Seja a louraça femme fatale que mata um figurão e pelo rádio da polícia avisa que está usando uma calcinha bélica, do míssil Exocet, ou o avó que vai buscar o netinho internado em um asilo para dependentes de eletrônicos. É o mundano tornado improvável. São fait-divers transmutados em letras completamente cinematográficas. Ele mesmo aponta que suas histórias são “crônicas hiperbólicas”. Longe do comum, parece ser o lugar que Fausto tenta alçar sempre.

A direção de Victor Lopez em “Fausto Fawcett na Cabeça” acompanha, em certa medida, esse caráter do artista. Com hibridismo na linguagem, o documentário muitas vezes pende à abordagem experimental, mas com as devidas concessões ao convencional. Neste primeiro ponto, as imagens acompanham o pensamento acelerado-hiperbólico e por vezes distópico do interlocutor, imagens se fundem assim como as ideias são amalgamadas em um discurso só, que vai do religioso ao profano, do ordinário ao inconcebível. Para além da própria questão formal das duplas, triplas e quádruplas exposições, o diretor também multiplica os rostos, distorce por meio de espelhos e se propõe a dividir a tela e, por extensão a atenção do espectador, com a tela mutilada em quatro quadros. A proposta, apesar de ousada, é condizente com o ritmo acelerado da sociedade cujos eletrônicos são extensões fisiológicas de si. Outro ponto neste aspecto é a interrupção do fluxo tradicional da linguagem documental para inserir performances musicais.

Já do lado do convencional, há o uso das entrevistas, com as famosas “cabeças falantes” e o indispensável uso das imagens e gravações de arquivo, que ajudam a contextualizar o espectador naquele universo. Por mais que o tom predominante seja uma espécie de “Fausto por ele mesmo”, com espaço para divagações e devaneios filosóficos, da aproximação com o pensamento orwelliano no quesito da mídia e cronenberguiano nas pulsões de sexo e morte, outras pessoas também compõem o retrato do artista. Fernanda Abreu, que cantou com ele, trazendo à sonoridade um aspecto de B52’s ou mesmo da Blitz no rap rock do cantor, dá contribuições pontuais enriquecedoras, assim como os outros músicos que também dividiram os palcos com Fausto. A única participação que parece despropositada, ao menos inicialmente, é a da autointitulada “Ex-Miss Febem”. Parece apenas pontuar a continuidade do legado de Fawcett, mas posteriormente se revela uma atualização das Louras Genéricas e uma performer incrível no número de “Facada Leite Moça”.

As mulheres, a bem da verdade, parecem sempre pairar em torno do pensamento criativo de Fausto ao longo do documentário. A começar pela atriz e modelo Farrah Fawcett, que garantiu ao artista o “sobrenome” artístico. Outras estrelas também são homenageadas, a modelo Silvia Pfeiffer estampa a capa do álbum “Império dos Sentidos” – título chupado do excelente longa de Nagisa Oshima -, a atriz de “Lagoa Azul”, Brooke Shields tem o nome cantado a esmo pela voz grave de Fausto, assim como Sharon Stone, estrela de “Instinto Selvagem” e homenageada na canção “Básico Instinto” – tradução do título original da obra de Paul Verhoeven. Ao lado da reverência, surge também a veneração, primeiro com a Santa Clara Poltergeist, padroeira das comunicações, segundo Fausto, das ondas eletromagnéticas de outrora e hoje do mundo sem fronteiras antecipado por McLuhan e endossado pelo artista. Depois, a veneração deixa de ser religiosa e torna-se hedonista, dos corpos das vedetes no show erótico em uma boate pequena, do rebolado sensual ao som do rock cantado-falado e que também conseguiu os estúdios de televisão. Todas louras, é claro. As paquitas, loiras do Tchan em uma disposição mais provocativa, sim. Mas, no centro de tudo, Copacabana.

Sujo, caótico, cinematográfico, contraditório, experimental e, acima de tudo, provocativo. Tudo isso pode ser dito de “Fausto Fawcett Na Cabeça“. Esses adjetivos, porém, também podem ser plenamente aplicáveis à carreira e a própria figura de Fausto Fawcett. Portanto, o diretor acerta bastante no tom ao propor que o documentário consiga materializar as próprias características daquele que está à frente às câmeras. Existem sim, algumas decisões criativas que podem ser questionadas, como a primeira aparição da Ex-Miss, que parece totalmente dispensável, ou a abordagem da carreira literária de Fausto pela via mais fácil, a leitura em off dos contos que ele produziu, mas sem um aprofundamento maior na produção e recepção destes livros. Apesar disso, o que fica na cabeça, com perdão do trocadilho, é a capacidade de transitar por diferentes linguagens, não perder a veia filosófica de um articulador entre a cultura considerada clássica com a popular por se ater apenas ao musical. Aqui está o cantor, o artista, o compositor, o escritor, o pensador, o provocador e o cronista do inusitado. O homem que vê nas ruas de Copacabana histórias louquíssimas e que personifica a cidade como mulheres fatais, que são, claro, louras.

3 Nota do Crítico 5 1

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