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Entre Tempos

Entre Tempos Ricordi?

Reconstruções e Desconstruções

Por Jorge Cruz

 

 

Entre Tempos” caracteriza-se por desfilar ao longo de seu percurso conflitos e antagonismos que passam longe do lugar-comum. Esgotar suas possibilidades é um exercício que mais entristece do que entretém, muito por sua ambientação que nos envolve com uma nostalgia deprimente. Seu prólogo traz uma edição de cortes rápidos, daqueles que lembram os videoclipes que não deixam o espectador focar em alguma ação por mais do que centésimos de segundo. Mais adiante ele volta a usar não só essa forma de edição, como outras em que a ação é “mastigada”, causando o mesmo incômodo de quando assistimos algum youtuber que faz de tudo para ganhar alguns segundos, cortando qualquer respiração entre uma palavra e outra.

A vida desta produção pelo circuito de festivais no ano de 2018 foi bem sucedida. Na mostra paralela do Festival de Veneza, saiu vencedora do prêmio do público de melhor filme e de melhor estreante para a atriz Linda Caridi. No Brasil, aportou para o Festival do Rio e agora ganha o circuito comercial.

Desenvolvido como fluxo de consciência entre o casal de protagonistas, a grande força de sua execução reside na existência de contrapontos, tanto no roteiro, quanto no elenco, passando pela linguagem utilizada. A câmera inquieta e os cortes imprecisos e brutos contrastam com aquela fluidez nostálgica no pior sentido da palavra. A ideia é que o espectador compre a visão de mundo dos personagens, que não necessariamente reflete a realidade.

A premissa do roteiro é abordar todo o ciclo do relacionamento de um homem e uma mulher. Os personagens não possuem nomes, expediente utilizado com frequência para universalizar-los, tal como em “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008, Fernando Meirelles) e “Hiroshima, Meu Amor” (1959, Alain Resnais). Chamar “Entre Tempos” de romance já é escolher um lado, algo que o diretor-roteirista Valerio Mieli (“Dieci Inverni”, de 2009 e sem título no Brasil) que também dirige o longa) tenta de todas as maneiras evitar. As duas visões de mundo transformam o homem e mulher em amantes e, ao mesmo tempo, antagonistas. Nos primeiros encontros, quando a paixão floresce, ele diz que nossas lembranças são moldadas para que possamos suportar a vida – indicando que todas as cenas que formam o arcabouço de memórias dele podem ter sido impunemente manipuladas. Já ela resiste a tal interpretação, pois acredita que as lembranças por si só já são revestidas de coisas boas.

Isolar este debate e ampliar sua discussão para além da vida amorosa se revela uma provocação bem distante desta crítica. Mesmo assim, é interessante pensar como naquela cena, logo no primeiro ato, o filme te entrega que não estamos diante de pessoas que caminham juntos e, ainda mais, se completam. Mesmo assim, o amor de alguma forma floresce. Baseado em vulnerabilidades sazonais ou como ato de fé. Para o homem do filme, era fundamental que a paixão fosse algo provocado, evitando que o casal caísse em uma rotina que – logo cedo – transformaria aquele fogo em uma grande amizade. No fundo, ele não acredita no amor e quer suprir essa lacuna com dificuldades hipotéticas, para que os primeiros encontros sejam verdadeiras aventuras. A boa interpretação de Luca Marinelli, que também já foi laureado em Veneza, com seu trabalho em “Não Seja Mau” (2015, Claudio Caligari) parece solidificar a carreira do ator.

Esse arrebatamento pelo amor por parte do homem é parte de uma inversão de estereótipos de gênero que “Entre Tempos” quer levar adiante. Ele é um homem que chora, que se entrega e emprega uma carga sentimental forte, se desconstruindo a todo momento. Mas toda desconstrução tem um limite – esse variando de pessoa para pessoa. A máscara do protagonista cai no ato final, quando a Síndrome do Chifre faz com que ele se revele bem mais enquadrado com os símbolos vinculados ao masculino do que se imaginava.

O caminhar da história pode passar a impressão de que ela possui menos espaço do que ele pelo olhar da câmera. Todavia, este é somente mais um conflito. Enquanto o homem explora suas lembranças (manipulando-as ou não), tudo o que ela traz à superfície é curado com muito zelo. Nesse ponto a técnica do filme se mostra essencial para a melhor experiência. Quando o homem quer evitar alguma memória, a câmera se mostra ainda mais inquieta, foco perdido, som ininteligível, dentre outras coisas. Já quando é uma lembrança que ele quer valorizar, a nitidez é surpreendente.

O acerto da montagem do longa é não deixar que essas transições presente-lembrança e ele-ela sejam confusas ou sem objetivo. Há espaço para que se brinque com as armadilhas da memória. Como não se identificar com o momento em que o homem retorna a uma casa que frequentava quando criança e ver como ela parece bem menor do que acreditava que era?

Sobra tempo ainda para o conflito mais importante da trama: a visão filosófica de que a finitude é algo que valoriza a lembrança. A mulher, que fecha suas memórias com flagrante medo de se envolver e ferir, entende que cada história que carregamos conosco vale muito – porque elas nunca serão revividas e em algum momento não viveremos novas histórias. Nesse momento, aquele homem que criava desventuras de amor para manter a chama acesa, que adorava contar coisas de seu passado, se revela bastante frio ao defender que não há diferença no fato da existência ser finita.

Antes do ato final, o filme se permite trabalhar um pouco mais a linguagem, girando por alguns minutos sem objetivo específico, como um entreato. São cenas esteticamente mais trabalhadas, utilizando a obsessão pelo passado e por um amor antigo do homem como mola propulsora de belas imagens. Quase como um afago antes do mergulho pela nostalgia depressiva que o roteiro sempre ameaçou fazer. Partindo da importância do sexo em um relacionamento, enfumaça nossa vista ao mostrar o presente tão confuso como uma lembrança. Não há nada mais triste para quem vive um amor do que concluir que está vivendo um passado e que as memórias passaram a ser uma fiel companheira do casal.

Depois de tantas desconstruções, quando as tentativas de reconstruções não surtem mais efeito, chega-se à máxima do “tem que morrer para germinar”. É quando “Entre Tempos” entrega o que parecia ser seu objetivo, deixando o espectador entre as lembranças e as dores dos personagens e as de si mesmo. A luz acende e você está sozinho.

3 Nota do Crítico 5 1

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