Dhurandhar
Até tu, Brutus?
Por João Lanari Bo
“Dhurandhar” – este é título do filme dirigido por Aditya Dhar em 2025, uma das estrelas ascendentes de Bolywood, com 3 horas e 34 minutos de muita pancadaria gráfica, câmera lenta para realçar movimentos e emoções, romance com direito a casamento …e a incontornável coreografia musical. Ou seja, a fórmula bollywoodiana levada ao extremo, para saciar apetites vorazes e insaciáveis, mas…com um diferencial, perigoso e provocativo: o enredo, salpicado de referências reais, fatos e personagens, é inacreditável – porém factível num imaginário nacionalista hindu, sempre hostil ao vizinho Paquistão.
Sim, é uma história inverossímil, para dizer o mínimo – mas, não seria essa a essência do cinema como arma de propaganda? “Dhurandhar” segue as peripécias de um agente da contraespionagem indiana infiltrado no Paquistão, Hamza Ali Mazari (Ranveer Singh), em meio a ataques terroristas e briga local de gangues. Desnecessário ressaltar que o que se passa do outro lado da fronteira é uma espécie de caos em ebulição, movido por disputas internas de poder e ao mesmo tempo um ódio visceral contra o gigante vizinho. Não faltam produções com fundo político em Bollywood, com doses variadas de violência, cancioneiro e atrações amorosas, mas este superou todas as expectativas – mesmo a recepção no país de origem foi marcada por polêmicas, que só fez aumentar a atração do produto.
Com Índia e Paquistão sempre às turras e armados até os dentes – ambos possuem arsenais nucleares – não deu outra: lançado no início de dezembro de 2025 nas salas de cinema, o filme foi o campeão de bilheteria no mesmo 2025, apesar do pouco tempo de exibição, pouco menos de um mês. Já é o segundo filme falado em hindi no box-office de todos os tempos, e o quarto indiano em rendimento global, também de todos os tempos. No final de janeiro do corrente ano, entrou no catálogo da Netflix: se o streaming prejudica ou não a distribuição nas salas, não parece ser uma preocupação para os produtores. Além da experiência na tela grande afigurar-se, digamos, mais convidativa para um público entusiasmado a priori para vibrar com as habilidades do insuperável Hamza, mostrar o filme para um público global amplia a audiência e atende aos objetivos de propaganda implícitos na saga heroica.
Como ocorre com frequência nas produções de Bolywood, o filme é dividido em capítulos, no caso oito – que podem ser vistos em separado, como se fosse uma série (e aqui a possibilidade de reconectar o filme no exato momento da interrupção da noite anterior é mais uma vantagem tecnológica do streaming). Os capítulos trazem sugestões polpudas – “Um estranho na terra de sombras”, “O guardião do diabo”, “O efeito Borboleta”, entre outros, culminando com um shakespeariano “Até tu, Brutus?”. Hamza, com cabelos (bastante) longos, físico vitaminado e olhar penetrante – ele é um popular galã – chega em Lyari, bairro pobre e densamente povoado da cidade de Karachi, no Paquistão. Começa como ajudante de uma loja de sucos – sim, loja de sucos! – e consegue penetrar na gangue de Rehman Dakait, poderoso local da etnia baloch, grupo de origem iraniana da região fronteiriça entre Paquistão, Irã e Afeganistão.
Hamzi, que também é baloch, conquista pouco a pouco a confiança dos chefes. No caldeirão de Karachi, a convivência entre grupos étnicos é complexa – os baloch são muçulmanos sunitas, mas cultivam atributos culturais, como uma língua própria, zelosamente. O propósito de “Dhurandhar” é demonstrar a tese de que ali se forjaram as condições para violentos ataques terroristas em solo indiano, desde sequestro de avião até tomada de hotel com morte de reféns. A gangue de Rehman ajuda os terroristas através do tráfico de armas. É uma tese que o filme abraça sem constrangimentos, simplificando uma realidade provavelmente muito mais complexa. Uma rápida consulta na recepção do filme entre críticos indianos sugere que o tema está longe de ser um consenso – é certo que a animosidade de muçulmanos contra hindus, e vice-versa, é cada vez mais forte, mas seria precipitado uma tal conclusão.
Como a ideia era reduzir toda essa confusão a um mero entretenimento – incluindo a apologia da violência – não surpreende que o chefe da inteligência indiana afirme, sem rodeios, que todos os ataques terroristas estão, diretamente ou indiretamente, ligados à região de Karachi. Além disso, a Índia acusa o Paquistão de dar cobertura ou pelo menos fazer vista grossa para os terroristas, e por extensão, às gangues.
“Dhurandhar” aterrissa nesse conflito milenar e joga lenha na fogueira, como se diz. O diretor Aditya Dhar insiste que fez um filme apolítico. A enorme audiência que vem obtendo parece concordar com essa (provocativa) asserção. Os países do golfo arábico, entretanto, baniram a película, assim como o Paquistão, naturalmente – desde 2019 que nenhuma produção bollywoodiana entra oficialmente no país, apesar de populares. Mesmo com toda a tensão entre os dois países, os filmes indianos são consumidos por paquistaneses fanáticos por filmes de ação, que não hesitam em piratear ou acessar a Netflix via VPN, informa a Wikipedia.


