Vidro
Pedras-terapia nos castelos de vidro
Por Fabricio Duque
É de admirar o grau de fascínio que o diretor indiano M. Night Shyamalan, naturalizado norte-americano, causa no meio cinematográfico, principalmente entre os críticos. Talvez seja por seu poder de manipulação no cultuado “Sexto Sentido”. Alguns confessam que até as piores obras são boas como “O Último Mestre do Ar”. O cineasta tornou-se gênero ao conseguir unir terror psicológico com sensação sobrenatural, explicado pelas infinitas possibilidades dos campos cerebrais em transmissões quebra-cabeças que, quando montadas, surpreendem o público.
Em “Vidro” não poderia ser diferente. O novo filme pode ser considerado o final de uma psicopata trilogia psiquiátrica pelo desenvolvimento de múltiplas personalidades. Sim, é a continuação de “Corpo Fechado “ com “Fragmentado” por mesclar personagens dos dois filmes como se fosse um novo “Avengers: Guerra Infinita” do hipster. É também um filme de super-heróis, de indivíduos que acreditam incondicionalmente em seus poderes e habilidades.
“Vidro” busca o conceito da auto-ajuda. De civis a vigilantes contra o mundo podre em que pessoas batem gratuitamente nas ruas por diversão. A figura do super-herói veio para dar esperança a um povo. De ser Deus à imagem e semelhança. De salvar a humanidade dela mesma. De acreditar em “teorias tênues” para que assim cada um possa haver um final feliz.
Após a conclusão de “Fragmentado” (2017), Kevin Crumb (o ator James McAvoy), o homem com 24 personalidades diferentes (que continua sequestrando pessoas em submundos, como quatro adolescentes que “são impuras e ainda não sofreram”), passa a ser perseguido por David Dunn (Bruce Willis), herói “pontinha de pé” de “Corpo Fechado” (2000), como o “Arqueiro Verde”. O jogo de gato e rato entre o homem inquebrável e a Fera “indestrutível” é influenciado pela presença de Elijah Price (Samuel L. Jackson), o homem “Vidro”, que manipula seus encontros e guarda segredos sobre os dois.
Entre projeções lembradas, escolhas inocentes, referências aos filmes anteriores, a presença do próprio diretor como um cliente em uma loja, sobrevivências, “lóbulos frontais” de dezenove anos atrás, a lenta câmera slow-motion, “Síndrome de Estocolmo” (pela vítima ter sido “poupada” – o fascínio pelo perigo) e delírios sociais, o filme conduz-se pelo universo pop das Histórias em Quadrinhos. Elijah lê mentes e abre portas, como uma mistura de Professor Xavier , Magneto e Mística, de “X-Men”. David tem sensações de prévias tragédias (intuições de esbarrar e sentir uma “visão” e ou uma “transgressão”), como “Premonição” com Vampira. E faz justiça com as próprias mãos. Kevin ao ficar com raiva vira um que de “Incrível Hulk” (um monstro e ou um demônio interno que o estimula a matar).
“Vidro” é um filme de frequências narrativas. Usa o simplismo das clássicas reviravoltas para construir uma aura mais amadora. De experiências mais intimistas com os espectadores. Apesar de bobo e óbvio (com reações forçadas, excessivas explicações, a música de suspense a uma nova descoberta, graça popular destinada à massa, câmera de ponta à cabeça, alívios cômicos e interpretações mais superficiais ao teatro), sua premissa é conservada: a de entreter com aura independente.
É também isolamento terapêutico. De testar limites e libertar “poderes”. De “procedimentos de correções”. a esses “mentalistas”. De dissecar suas obsessões. De formular práticas e lógicas explicações. De manter a ordem e o equilíbrio. Cada um deles possui sua vulnerabilidade. Sua fragilidade kriptonita de “Superman”. Água, luz e câmeras. Metáforas. Como a que acredita na mudança, trabalha em um Zoológico, e assim entende o instinto natural dos “animais”. Como a “doença dos ossos de vidro”. E ou como “a criança que nunca cresce – sempre com nove anos”. São indivíduos que “acham” que são “imortais” e “espetaculares”. Com identidades secretas, habilidades reveladas e reflexos deturpados. “Os perturbados são os mais fortes”, diz-se, enquanto “outros estão perdendo a sanidade” e “facilitando” o roteiro, já fácil e frágil, com suas saídas de efeito, pelas rotina de conversas sobre “extrato de uva” e vitamina D (“para melhor ser absorvido pelo organismo”).
Quando menos se espera, o longa-metragem adentra um mundo único. De investigação mental. Por uma doutora precisamente profissional. Que consegue traduzir falhas, fugas e defesas. Sem acreditar nos personagens das histórias em quadrinhos, fantasias “sem nenhum valor histórico” Neste ponto, nós não sabemos mais para qual caminho o filme irá. Somos imersos nas manipulações multipolares, em “paradas sinistras” e em excelências de “planejar coisas”. “Você não pode justificar tudo com fatos”, diz-se. A “resposta está nos quadrinhos”. Heróis ou vilões? Traumas passados que mudaram a mente, quase à moda de “Lucy”, de Luc Besson?
“Vidro” é um filme de altos e baixos. Que vai da perspicácia criativa a uma palatável nivelação. Da anarquia ao sentimental, passando por suavizações de humor pela tentativa espirituosa de brincar com o ingênuo. O confronto final traz a mensagem de que se estiver perdendo a fé, então é só acreditar no que realmente é. E que todo e qualquer ser-humana, ainda que dotado de força descomunal, tem em si todas a unicidade particular do existir e do ser. Toda a personalidade inerente é o que faz de cada um ser “espetacular”.