Términos, começos e voltas do amor
Por Fabricio Duque
A essência principal da arte cinematográfica é estimular emoções em seu público, e é por isso que podemos explicar que aquele determinado filme consegue atingir mais uns que outros, tudo pela capacidade da subjetividade, gerando infinitas possibilidades narrativas de se contar uma história. O céu é o limite da criatividade. E como consequência desta criação, gêneros podem se transmutar e adquirir influências de outros, visto que “nada se cria, tudo se transforma”, já dizia Lavoisier, que por sua vez foi parodiado por Chacrinha com “nada se cria, tudo se copia”.
Outra consequência natural é a padronização de fórmulas. Quando algo faz sucesso, automaticamente é refeito, produzindo definições como gêneros, como a novela, por exemplo, um folhetim mais popular, que dialoga mais rápido com os espectadores por elencar uma linguagem mais clara e objetiva, pluralidade dramática, enredo desenvolvido de maneira sequencial etc, A televisão adotou esta estrutura como forma de suas obras, desencadeando um “vício” ao “desligar o cérebro de que assiste”.
Como foi dito, o que dá certo, estimula produtos iguais. As franquias estão aí para provar este argumento. Então, logicamente, o cinema também não ficaria de fora, trazendo o universo das novelas com o apuro técnico proveniente da sétima arte. “Todas as Canções de Amor” é um desses exemplos. De gênero híbrido ao conjugar estética da imagem com a facilidade da trama. Com espaço e tempo dissociáveis. Com tempo não linear.
Abre-se liberdades narrativas, às vezes descontínuas, mas ainda assim com ecos mais palatáveis, como a didática explicativa do roteiro; a utilização de atores conhecidos e bonitos; a mitigação do silêncio entre cenas; a mastigação das ações e reações (que só vão até um certo limite aceitável); a tentativa de amenizar os clichês do amor “querendo ser romântico (só um pouquinho)”. Tudo envolto em um cuidadoso trabalho da fotografia e com voz off: “Está feliz?”.
Porém, há outro elemento também palatável em “Todas as Canções de Amor”, que é a presença de músicas conhecidas que cantam o sofrimento, só que são consideradas românticas. Caetano Veloso em “Mora na Filosofia” já perguntava “Rimar amor com dor?”. O filme objetiva nos perguntar: O que é o amor? Com “Eu Sei Que Vou Te Amar”, com Gilberto Gil, Maria Bethânia recitando Fernando Pessoa (“Que não seja imortal, posto que a chama, mas que seja eterno enquanto dure”, como em “Sonhos”, também de Caetano), com Cartola (“Esquece nosso amor, vê se esquece”) com “Baby”, de Gal Costa, “Feelings”, de Morris Albert, “Ne me quitte pas”, Cazuza, Chico Buarque, Leandro e Leonardo, Blitz e “Você não soube me amar”, “Último dia”, de Paulinho Moska, Kaoma, Pato Fú,
Chico (Bruno Gagliasso) e Ana (Marina Ruy Barbosa) se mudam para um novo apartamento em São Paulo. Enquando arrumam as coisas, ela acha um fita K7 e decide escutar. Trata-se de uma mixtape que Clarisse (Luiza Mariani) fez 20 anos antes para seu marido, Daniel (Julio Andrade). Os dois casais, apesar de distanciados pelo tempo, têm muito em comum. Sim, tudo é um grande estudo do amor, em épocas diferentes com influências diferentes. O filme nos oferta uma análise. Uma terapia de caso. Dos estágios apaixonados. O início com menos conflito e com maior paciência dos “recém-casados”. E o final já defensivo e agressivo pelo desgaste vivido (“O problema não é te escutar, é te entender”). São dois tempos. Outros tempos. Histórias paralelas, pululadas de sacadas pop com Gremlins, por exemplo.
“Todas as Canções de Amor” conecta-se pela música. Por uma vitrola (“som pré-histórico” versus o “Ipod”) e uma fita gravada (da história de amor de outra pessoa – “faz parte da história de alguém”). É um filme musical “meio deprê”. Uma versão bem mais puritana e MPB de “Nove Canções”, de Michael Winterbottom. Outra questão é a de transformar esses músicas em artistas irretocáveis (às vezes soando como uma “puxada de saco”). Não que não sejam, mas a necessidade de potencializar genialidades, tende a uma ingenuidade oportunista. “-Velho é velho. -É clássico, não velho”, embatem cumplicidades e músicas que “unem e separam”.
É uma crônica sobre relacionamentos, adentrando o espectador na intimidade desses estranhos tão próximos. Com imaturidades, discussões, suposições, “conceito e proposta”, proteções do falar versus a ofensa direta, atitudes faltosos e sobradas, ironias, permissões, como crianças brincando de casinha dos adultos. É um filme brega e cafona, talvez porque o amor seja exatamente dessa maneira: transbordando e exagerando nos limites.
Dirigido pela documentarista Joana Mariani (de “Marias”, “A Imagem da Tolerância”), que estreia em um longa-metragem de ficção, “Todas as Canções de Amor” é sobre se “um grande amor é mentira”. “Quando a gente ama, a gente faz tudo”, diz-se, com “I Will Survive” e “Perla Negra”. Sim, é um filme sem amor. “É mesmo uma história de amor?”, com “ex-casais civilizados” (“povo evoluído”) e cactos falecidos. “As pessoas mudam muito pouco” e “Cada um vira um plural”. Mas cada um busca a projeção de um “amor perfeito”. Ainda. O longa-metragem não descarta obviedades e clichés. “Eu Te Amo não é uma frase simples de dizer”. A música reina absoluta como protagonista em “Todas as Canções de Amor”, que vai e volta para conduzir as decisões únicas e exclusivas de suas personagens, à moda moderna de “Eu Sei Que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor.