Um filme que não pede para sair
Por Fabricio Duque
Durante o É Tudo Verdade 2018
A cinebiografia sobre o artista fanfarrão artista brasileiro Hugo Carvana é uma obra adjetivada. Não poderia ser diferente, visto que estas palavras o definem como indivíduo existencialista no meio social. A narrativa busca a essência, imprimindo uma irreverente narrativa despirocada ao mesclar uma colagem imagética de filmes, arquivos pessoais com fotos e acontecimentos históricos de uma época, como a da Rádio Nacional.
São memórias contadas pelo próprio artista homenageado, em estrutura clássica de entrevistas passadas, como a de que “estava sendo descoberto pela arte” quando recebeu “uma carga de energia de morar perto de cinco cinemas” de rua. Hugo era um ativo, ávido e inveterado cinéfilo. “Aquele mundo o fascinou, tornou-se sua casa”, conta-se, entre inúmeras curiosidades idiossincráticas de sua intimidade, esta que não encontrava limites com a vida pública. “Anos de estudo de arte dramática para fazer humor”.
“Carvana” é sobre um mundo à parte. Uma nostalgia. Uma possibilidade ao espectador adentrar em um feixe interdimensional do tempo, como a confissão de “começar a carreira enganando que tocava violão”. E ou uma aula real sobre a História do cinema, igual a um livro, detalhado de lembranças, de emoções sensoriais e a tão aceitável credibilidade em compreender o aumento de pontos. “Filmar é cansativo, mas é melhor que trabalhar”, diz, entre bastidores de filmagem.
Os sessenta anos de carreira do inconfundível Hugo Carvana narrados por ele mesmo. A história do jovem estudante de teatro, que iniciou sua carreira no cinema através de pequenos papéis nas icônicas chanchadas e se consagrou como ator no Cinema Novo, é contada através de imagens raras disponibilizadas por artistas como Lulu de Barros e Glauber Rocha.
É um filme antropologicamente metafísico por quebrar parâmetros, paradigmas e preconceitos da opção de “ser ator”. E que ouviu que sua mãe não tinha criado o filho para ser “viado”. Hugo não desistiu e “aprendeu o domínio do tempo teatral, do espaço e o movimento da ação”, em época de Teatro de Revista (“um ator bêbado pós-boate”), entre companhias de Joel Barcelos e Augusto Boal. Aprendeu a “relação correta com a lente”, a necessidade obrigatória dos ensaios, a disciplina e o “rigor do quadro que fazia a transformação”. O artista também sabia que “fazia História” com a pergunta de “onde colocar a câmera” e expor a “caricatura de nós mesmos”.
O longa-metragem também é um documento de nosso tempo. A derrubada do presidente Jango antes do subdesenvolvimento. O Vietnã. Diretas Já. A era Collor. Os “sessenta e sete credores”. É sobre “potencialidade e palavra” da “triste, cinza e doída saudade”. Sobre transcender a padronização das regras de um sistema maquinário que não enxerga humanidades em seres humanos. Sobre a “ausência de uma cidade que não existe mais”. “Botar atrás da câmera o que quer colocar na frente”.
“Carvana” construiu um estilo. Orgânico, caseiro, amador, liberto e de cinema direto, mas também com o apuro técnico da imagem. Seus personagens (“quarenta e oito mil em um só”), catárticos e quase histéricos, são loucos, engraçados, escrotos e únicos. E se alimentam das próprias características não maniqueístas, que é o do jeitinho brasileiro de sobreviver na lama. Sempre cantando músicas, elemento sempre presente, principalmente na “rapidez e artificialidade” do Bar Esperança, onde tudo representa reencontros. “O bar é o símbolo do novo país”. Contra uma “elite espúria”.
De respeitar o lado “vagabundo” nosso de cada dia por épicas boêmias sem hora para acabar. Seus filmes reverberam uma desmedida diversão do agora, não encontrando lugar para “maduros” projetos futuros. É uma esperança instintiva, primitiva, passional e instantânea. “Menos censura e menos ganância”, e a falta de “amor na Embracine”, que nasceu com uma proposta sintonizada com o momento sócio, político e cultural do Brasil.
“Carvana” é muito mais que o documento de um ofício. É sobre a “alegria que está ligada ao afeto”. “Vamos dar as mãos e nos divertir”, celebra. É sobre o que nos motiva, nos mantêm vivos. É a personificação de nosso tesão. É uma obra sobre recordações. Uma terapia confessional. Uma libertação da própria alma pela verdade nua, crua e potencialmente sincera. “Aqui (no Set) é minha casa”, finaliza. É uma homenagem que “recompõe fragmentos” de suas memórias.
A sessão do festival É Tudo Verdade, na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, no Rio de Janeiro, representou um ato de resistência de que o “Cinema Brasileiro é muito maior que a crise”. E o filme em questão aqui não poderia ter sido mais contundente e preciso. “Não santo, porque de santo Carvana não tinha nada”, diz a equipe “pequena e valorosa”. “Carvana era um rapaz de família, mesmo malandro”. O filme é para “manter sua memória”, que teve muitos filhos entre um “filme e outro”, diz energizada a diretora “carvanóloga” Lulu Corrêa sobre as “várias faces” do “engraçado, rítmico e mordaz” Hugo Carvana, que nasceu em 1937 e se tornou um “malandro” eterno em 2014, com sua “alegria, irreverência e amor pela vida” (“Tudo regado a uísque e gelo”). Concluindo, um filme livre que busca soltar as amarras e se conduzir pelo respeito à liberdade não encenada, não blasé, não politicamente correta e não “becada”, deixando Carvana ser Carvana. Um filme que não pede para sair.