Crítica: Borg vs McEnroe

A ótica clichê do tênis por um diretor robô

Por Fabricio Duque


“Borg vs McEnroe”, filme que abriu o Festival de Toronto 2017, não quer apenas abordar o universo do tênis, esporte este foi definido pelo jogador André Agassi como a “linguagem da vida”, mas sim apresentar um exemplo “auto-ajuda” de superação do ser humano. Seu diretor, o dinamarquês Janus Metz (de “Armadillo” – este que venceu a Semana da Crítica do Festival de Cannes – e do terceiro episódio da segunda temporada do seriado “True Detective”), disse que é “sobre dois homens lutando para serem melhores, provando sua importância, para serem alguém”.

Contudo, é quando complementa sua definição de gênero com “esta é a versão tênis de “Touro Indomável”, de Martin Scorsese”, nós espectadores percebemos que talvez alguém precise ajudá-lo a baixar a “elevada auto-estima” pretensiosa. Outros filmes recentes já fizeram referência ao clássico longa-metragem dos anos oitenta, por exemplo o finlandês “O Dia Mais Feliz da Vida de Olli Mäki”, de Juho Kuosmanen.

A frase inicial do tenista (“Cada jogada da vida em miniatura”) indica que o que assistiremos é uma obra com texto-diálogos de efeito dramático, utilizando-se de gatilhos comuns hollywoodianos já tipificados para construir um “preciso” caminho aos prêmios internacionais. Baseado em uma história verídica da “partida do século” de dois jogadores rivais que lutam “contra si e contra seus demônios”.

“Borg vs McEnroe” nivela-se pela superfície. Há hesitação em aprofundar sentimentos, sensações e reações de seus personagens: Björn Borg (o ator Sverrir Gudnason, de “Original”, “Waltz for Monica”, “Blowfly Park”) e John McEnroe (o ator Shia LaBeouf – sendo exatamente Shia LaBeouf, de “Transformers”, “Ninfomaníaca”, “Docinho da América”) para a final de Wimbledon, em 1980. Enquanto o primeiro, sueco “imperador”, tido como técnico e calculista (“pura perfeição, zero emoção” – com um treinador que lembra a rigidez perfeccionista do professor de “Whiplash – Em Busca da Perfeição“, de Damien Chazelle), sofre a pressão de defender o título do torneio pela quinta vez consecutiva (um feito inédito); o segundo “novo rei” “arrogante”, “pretensioso” “Big Mac”, norte-americano, vai ter que superar o próprio temperamento explosivo (“o pior representante dos Estados Unidos desde Al Capone”) para mostrar que é capaz de chegar ao topo do mundo no esporte quando “jogar com um martelo”.

A narrativa segue as características intrínsecas do gênero. Abertura videoclipe com imagens caseiras Super 8 do passado dos jogadores. Depois Monaco 1980. O atleta galã bonitão já aparece sem camisa na sacada de um prédio. Ele cogitando pular? Ou gosta de fazer exercícios no perigo? O filme intercala com treinos, limites à superação, imposição a vitórias, tudo relacionado ao esporte. Podemos entender que é uma ode ao tênis (“como uma religião”) com uma certa obsessão à moda preceptoria bem distante de “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky.

O roteiro, que intercala como núcleos as histórias dos dois, tem momentos muito frágeis, como a cena em que Borg entra em uma cafeteria, pede um café, mas não está com a carteira. E pior: o funcionário não o conhece. E pior ainda com uma mentira protetora da própria existência. “Borg vs McEnroe” falta direcionamento. Falta lapidação. Falta maturação do material. As ações são hesitadas a acontecer, soando teatrais demais, encenadas demais, superficiais demais, urgentes demais. Rasas e sem vida. Tudo é demais. Falta o famoso “menos é mais”.

Outra questão inserida é o lado político de Borg, que não joga na África do Sul para não “apoiar o Apartheid”. E que recebe “clichês” cobranças da esposa. Enquanto o sueco recebe todos os “paparazzi”, o outro americano nenhum. Esta necessidade de competir com o melhor causa um preocupação estressante que atinge a agressividade. Eles são “gladiadores impostores” em uma trama forçada, desengonçada, quase amadora, e que transmite uma sensação de ensaio dos diálogos.

A câmera próxima na mão muda e foco e perde de vez o tom. Entre digressões, explicações didáticas do passado, nós captamos que a essência objetiva é a de ser uma novela típica sobre o esporte com respostas prontas de ser “o melhor do mundo” e com a presença marcante da música sentimental-catártica que rouba a cena. A rotina sistemática, a mãe que busca o perfeito filho robô, a falta de equilíbrio que mescla o temperamento agressivo e nervoso com o calmo, metódico e silencioso, flashes do passado, a boate Studio 54, encordoar perfeitamente as raquetes, tudo desmorona ladeira à baixo. Mas é quando o próprio filme perde o controle do próprio controle é que pela primeira vez há um ponto mais naturalista. Sem querer, quebra a máquina, precisa manter o foco, aprender como “isolar o que está fora da panela de pressão” e “descarregar tudo em cada bola” no meio de uma “batalha de nervos”. Só que quando este ponto chega já não estamos mais no filme. “Deixou de ser divertido”, diz-se sem “Match Point” (não estamos relacionando ao filme de Woody Allen) e sem “Tie Break” (como a decisão dos penaltis no futebol).

Esta sensação positivada dura pouco para retornar à câmera lenta “jogada pela coração” com música de violino que rasga a cena para nos manipular a conforto de não se pensar muito no filme. O que inicialmente, nas palavras de seu diretor sobre “Touro Indomável”, pudesse soar como pretensão, vemos ingenuidade e uma pressa em realizar a obra, como um “Ed Wood” moderno e com temática de esporte. Entre 1978 e 1981, os tenistas Björn Borg e John McEnroe se encontraram em 14 partidas. Os atores foram treinados pelos tenistas Jarkko Nieminen e Veli Paloheimo.

2 Nota do Crítico 5 1

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