Copacabana, 4 de maio
À espera da diva
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Allan Ribeiro é um cineasta que já esteve nos maiores lugares do cinema brasileiro. Venceu a Mostra de Tiradentes em “Mais do que Eu Possa me Reconhecer“, venceu o Festival de Brasília em “Mais um Dia, Zona Norte“, venceu o Grande Otelo com “Eu Fui Assistente de Eduardo Coutinho” – ou seja, uma carreira inatacável. Com títulos transitando entre uma profundidade analítica do ser humano e propostas despojadas de leitura do documentário, Ribeiro reafirma códigos do gênero em pequenos avanços. “Copacabana, 4 de Maio” já conseguiu alguns prêmios e encerrou Tiradentes esse ano, mas a leveza com a qual lê os personagens à sua disposição, dessa vez, é o grande trunfo para falar sobre corpos dissidentes e desejos idem.
Aqui temos uma encenação menos arriscada, já que o risco habitou os esforços da produção. Em 2024, um show ao ar livre nas areias da praia mais cantada do mundo foi anunciado para encerrar a turnê mundial de uma das maiores popstars da História, faltando apenas 40 dias para o evento. Esse foi o período de pensar, esquematizar a produção e efetivamente filmar os bastidores que envolviam a chegada de Madonna no Rio de Janeiro, e encontrar parte da gigantesca massa de fãs que estariam naquele espaço físico na mesma hora e dia. Dessa maneira, o esforço de realização de “Copacabana, 4 de Maio” é equivalente à logística que foi exigida ali.
O grupo de entrevistados escolhidos é diverso o suficiente para estar em cena, e através deles se compõe um painel que além da cultura ‘queer’, mas das marcas que uma artista deixou uma geração. Temos um historiador que tornou-se ator de filmes adultos durante a pandemia (e que é casado), o organizador de uma das festas de temática sexual mais famosas do país, a transformista que se reinventou como a própria Madonna, uma mulher cis heterossexual que se identifica com a liberdade que prega o ícone, um casal que viu sua história transformada pela estrela – e por Tina Turner também. Como bom entrevistador, Ribeiro consegue belos momentos de intimidade, mas em linhas gerais “Copacabana, 4 de Maio” os segue.
Essa investigação dos tipos que o diretor encontrou, com a realidade particular que cada um deles apresenta, produz a riqueza do resultado do que se assiste, o que significa essa qualidade intrínseca de Ribeiro herdada de Eduardo Coutinho, nosso mestre documentarista. Pouca interação, e muita escuta, em uma proposta comum de imersão no que se vê e em como se vê. São os detalhes de cada captura, como a gesticulação enfática de Fernando Brutto, ou a relação de amor entre Luiza Gasparelly e sua mãe, são motores de interesse no filme, e o que nos conecta verdadeiramente ao que foi filmado. Não se trata de um filme de forma, mas uma produção que confia no espectador para construir o molde de afeto ofertado.
Ainda que nada do que vejamos seja exatamente uma novidade dentro da cena ‘queer’, nem nos percursos e nem dos desdobramentos das histórias, o filme injeta humanidade à causos que já ouvimos, mas que por muitas vezes seguem sem rosto. “Copacabana, 4 de Maio” coloca os desejos e os sonhos de uma parte significativa de quem gasta dinheiro (ou seja, o tão propalado “pink money”) para debater suas próprias vivências. Em um cenário onde isso ainda é raro, a voz de tais personagens acabam ganhando força própria, que sobressai ao formato já anteriormente testado. Cabe a quem é ouvido garantir que continuemos com interesse genuíno de ouvi-los.


