Chorão: Marginal Alado
Um competente resumo
Por Pedro Mesquita
Não deve fugir à percepção mesmo do mais casual dos espectadores que os documentários biográficos representam uma grande tendência no mundo do audiovisual contemporâneo. Sendo esse um gênero que não costuma conquistar tanto espaço nas salas de cinema, é comum que sejam exibidos em serviços de streaming. É esse o caso de “Chorão: Marginal Alado”, co-produzido pela MTV e distribuído pela Netflix, onde figuram dezenas (ou mesmo centenas) de outros documentários de similar estrutura narrativa biográfica.
Diante de um corpus extenso como esse reunido pela Netflix, vale questionar, ao nos determos no filme em questão, se a sua execução é suficientemente distinta dos demais a ponto de merecer atenção especial ou se ela é padronizada, protocolar. O que nos reserva, então, este filme?
Como o título já deixa explícito, “Chorão: Marginal Alado” conta a história do músico Chorão, vocalista da banda de rock brasileira Charlie Brown Jr. Organizado linearmente, o filme narra, ao longo dos seus curtos 75 minutos, toda a vida do cantor: o seu crescimento na cidade de São Paulo, a mudança para Santos, a paixão pelo skate, o acontecimento fortuito que o trouxe à música, o começo da banda… percorre-se tudo isso e muito mais até o evento da sua morte, em 2013, em decorrência de uma overdose. Listar todos os acontecimentos espremidos ao longo dessa hora e quinze minutos só faria acentuar o quão apressado o filme é em contá-los; vamos de uma etapa à outra da vida de Chorão com tamanha velocidade que por vezes nos ocorre a vontade que o filme desacelere um pouco para se deter em momentos especiais.
Um desses momentos, por exemplo, acontece no terço inicial do filme: o músico explica, em alguma entrevista concedida ao longo de sua vida, a íntima relação entre o skate e a música. Ele fala que as duas coisas sempre estiveram intimamente ligadas para ele; chega até a fazer associações entre as práticas dessas duas atividades: cada manobra dentro de uma sequência é como um acorde dentro de uma música. Essa pequena declaração muito interessa, porque revela como esses dois eixos da sua vida se retroalimentavam; revela também, de modo mais geral, como a música é parte fundamental da cultura do skate, e como o inverso pode também ser verdade (pelo menos a certos tipos de música popular, como o punk rock ou o rap).
Infelizmente, o filme não pode se deter nesses aspectos mais específicos da vida do cantor, pois tem todo um itinerário a percorrer. É aqui que não podemos deixar de lamentar o fato de “Chorão: Marginal Alado” se contentar com o caminho convencional tomado por boa parte dos documentários biográficos, o de resumir a vida do artista através de uma dinâmica expositiva. O papel que o filme toma para si é o equivalente ao de uma página da Wikipédia sobre o seu personagem, com o diferencial de que ele dispõe de um grande número de imagens de arquivo para fazê-lo (o que, sejamos justos, ao menos constitui um atrativo a mais, embora essas imagens não sejam exatamente exclusivas). Além disso, o que mais se pode dizer sobre a pobreza desse modo expositivo é que a narração do filme se caracteriza pela sua redundância: a imagem apenas ilustra o conteúdo do voiceover, e vice-versa.
O retrato do protagonista que o filme constrói não deixa de ter seus méritos. É minimamente louvável que ele fuja da tendência a santificar o seu objeto de estudo, omitindo falhas e deixando apenas a parte positiva de seu legado; ao contrário disso, vemos as virtudes mas também os vícios de Chorão: por um lado, a sua disposição para o trabalho, a relação amistosa com os fãs, o seu carisma; por outro, a sua personalidade explosiva, as brigas com companheiros de banda e com outras notórias personalidades brasileiras, o seu trágico fim…
“Chorão: Marginal Alado” inscreve a vida do seu personagem principal no esquema narrativo do artista que se torna tão conhecido a ponto de não mais suportar as consequências da fama (esquema esse bastante recorrente na história da música popular, daí a sua familiaridade). Esse percurso é realizado com alguma competência — o filme é, de fato, comovente —, mas com pouca inspiração. Nesse sentido, não nos deixa de parecer um erro a tentativa de representar um homem extraordinário pelos meios mais ordinários possíveis. Contente com o seu status de mero resumo da vida do artista, o filme é menos uma obra digna de méritos por conta própria que um “aperitivo que convida o espectador a experimentar o prato principal”; no caso, a discografia de Chorão — problema esse que já havia sido apontado em outro filme de similar intenção, “Belchior – Apenas um Coração Selvagem”, recém exibido no festival É Tudo Verdade.
Portanto, quem procura o dito resumo pode se satisfazer com o filme; quanto a quem procura algo mais profundo ou mais emocionante que isso, talvez seja melhor recorrer às próprias músicas do cantor.