Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Amante Difícil

Uma história de amor, de aventura e de magia 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Amante Difícil

João Pedro Faro e seus companheiros de MBVideo são fascinados por um certo… cinema de perambulação? Em seu quarto longa-metragem, “Amante Difícil”, Faro avança coerente pela jovem filmografia que vem construindo. Ainda assim, algum sossego é encontrado aqui e isso, no caso da melancolia feérica que ele aponta em seus títulos, encontra uma maneira singela de contar uma história de amor, como ele mesmo descreve. Quem já o conhece como autor, sabe que o amor até estará ali, mas muito além disso será apresentado para conectar seus interesses estético-narrativos. E com fluidez, ele consegue um caminho que parece apontar para a maturidade, com entender o seu próprio cinema em um projeto de comunicação menos entrincheirado.

A MBVideo é uma produtora carioca de cinema independente, que tem Faro como seu principal refletor, embora seus integrantes realizem sempre uns nos projetos dos outros, em papéis de criação efetivos. O cinema realizado por eles não busca uma lógica de mercado cuja estrutura seja difundida pela grande mídia ou circuito, e por isso eles conseguem a liberdade de apoiar essa liberdade estética-narrativa já supracitada, que tenha comunicação com uma certa marginalidade setentista. Daí, filmes como “Sombra” ou “Extremo Ocidente” nascem já sob uma espécie de culto entre cinéfilos que explorem outros sentidos que não os mais óbvios – mas está tudo lá.

Como citei no início do texto, cinema de perambulação. Não é exatamente uma ideia patenteada por Faro, mas interessa bastante acompanhar seus personagens que lidam com suas inquietações filosófico-existenciais (e aqui, românticas) pela ordem do percurso, diretamente falando. Miguel conhece Joana, e através desse sentimento que nasce naturalmente (também conhecido como tesão, bom dizer – já que o filme abafa essa ideia no verbal, mas carrega tanto dela para as imagens), ele busca os vestígios de uma noite anterior para dividir com essa garota. Ele vaga até de descolar de uma realidade mínima aceitável, e se embrenhar em algum pesadelo possível com ares de Godard tropical, ou uma macumba marginal.

Saltando das imagens, não é apenas um assentamento narrativo que carrega essa maturidade observada, mas a maneira como Faro trata o prosaico das relações, através de um tipo que instrumentaliza o melhor possível do ser humano, em decisões mundanas. A maneira como ele simplesmente ama, o que ele escolhe fazer com esse amor, sem atropelo e sem arroubo, é de uma fineza de olhar que chega a comover. Depois de atos em tese hediondos, chegar em casa e destituir de horror a própria existência; a cada garrafa ensacada, a cada elemento recolhido pela sala, Miguel apaga os traços de caos que lhe restaram. Porque ele deseja um outro tipo de encontro, um outro tipo de lembrança, um outro tipo de desconhecido.

Sua busca salta desse encontro noturno para uma provocação que também não deixa de procurar o Kubrick de “De Olhos Bem Fechados”: existe uma hipnose que une o que move Tom Cruise e Miguel Clarke pelas ruas de suas respectivas cidades, e termina em uma zona de incompreensão do formato e do conteúdo. Em ambos os filmes, é necessário um resgate de quem se é para que possamos voltar a ser o que desejamos – o Homem mínimo que se julga ideal. Com Cruise isso é irônico; com Clarke, isso é possível. Por isso o encontro com a energia selvagem de um Lynch carioca talvez seja mais urgente: porque acreditamos que Miguel e Joana possam ser felizes, e para isso ele precisa vencer o horror que Faro propõe, repleto de figuras disfarçadas, fantasmas e corredores ameaçadores e uma fuga da realidade do qual ele só quer voltar.

Não há esquizofrenia narrativa, que tanto é uma gradativa descida a um purgatório indesejado quanto uma busca incessante pela rotina da paixão tornada amor, e consegue empreender um processo de crescimento ao seu realizador, dividindo sua radicalidade para somar seus predicados. Não pensem diferente: “Amante Difícil” não é a entrada de João Pedro Faro no universo de Nancy Meyers – ou, talvez fosse pensando exatamente em congêneres dela que nasceu esse roteiro. Mas a maneira como ele traduz sua visão de uma história de amor para o cinema, ainda é a sua mais contundente forma de se apresentar, seu olhar, seus interesses e sua opinião. Pode não ser (e não é) a mais tradicional, mas não deixa de ser amor.

O olhar mais adequado para entrar em uma narrativa, particularmente falando, sempre vai acompanhar o fascínio, nasça ele onde for. O que Faro vem provocando com seu cinema, é uma fatia generosa de fascinação por uma arte centenária que surgiu com os pés fincados na magia e na proposta de fabulação. Quando ele e sua MBVideo, acompanhados de Pedro Tavares, Ramon Coutinho, Fábio Rogério, Anita Rocha da Silveira, Yasmin Thayná, Gianluca Cozza e Leonardo da Rosa, Yuri Costa, Lincoln Péricles, resolvem rasgar alguns preceitos acadêmicos para beber e cuspir de volta pó de pirlimpimpim cinematográfico, resgatando os primórdios do cinema para reconfigurar códigos atemporais, o Cinema pode sossegar. “Amante Difícil” não está na prateleira mais fácil do mercado, mas existe uma prateleira para ele que precisa ser ocupada.

5 Nota do Crítico 5 1

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