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A Voz de Hindi Rajab

Cinema e Guerra

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

A Voz de Hindi Rajab

Todas as guerras futuras, todos os acidentes futuros serão guerras ao vivo e acidentes ao vivo (Paul Virilio)

A Voz de Hindi Rajab” é um filme que comprime o tempo de modo a provocar um efeito de suspensão vital no espectador. Seria o que os críticos chamam de “tempo real”, produções onde a duração da história coincide com o tempo de exibição, gerando alta tensão e imersão. No mundo do entretenimento, não faltam alguns (poucos) exemplos. No filme da diretora tunisiana, Kaouther Ben Hania, atenção e imersão acontecem diante de um fato absurdamente real, a história de Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos que foi morta em Gaza, janeiro de 2024 – uma história contada através de sua voz, pedindo socorro à ONG humanitária “Palestine Red Crescent Society”.

Em 29 de janeiro de 2024, Hind viajava de carro com seis membros da família Hamadeh, após o exército israelense ordenar a evacuação de Tel al-Hawa, bairro na parte sul da cidade palestina de Gaza. O carro foi alvejado por um tanque, e Hind foi a única sobrevivente. Presa nos destroços, espremida contra os corpos de seus parentes, espera em vão por um resgate. Seus contatos via celular, com sinal intermitente, duraram algumas horas. Do outro lado da linha estava o escritório da “Red Crescent”, localizado em Ramallah, na Cisjordânia. Os diálogos acabaram entrando ao vivo no Instagram, e foram acompanhados globalmente. Kaouther Ben Hania conta como tomou conhecimento da tragédia de Hind:

Eu estava em uma escala no aeroporto de Los Angeles, quando ouvi a gravação de áudio de Hind Rajab implorando por ajuda. A essa altura, sua voz já havia se espalhado pela internet. Entrei em contato com a Red Crescent e pedi para ouvir o áudio completo. Tinha cerca de 70 minutos de duração e era angustiante. Depois de ouvi-lo, soube, sem sombra de dúvida, que precisava largar tudo. Eu precisava fazer este filme. Conversei longamente com a mãe de Hind, com as pessoas reais que estavam do outro lado da linha, aquelas que tentaram ajudá-la.

Cada palavra emitida por Hind tem um peso de realidade que vai além de qualquer convenção simbólica que a linguagem reserva aos membros dessa comunidade que é o cinema. O ar parece ser sugado da imagem na medida em que são ouvidas as palavras de Hind – sempre com tela preta e o sinal de sua voz na frequência oscilante das ondas hertzianas. A tela preta funciona como pontuação para o filme, rodado em formato ultra-widescreen, alternando com imagens dos atendentes em situações diversas de objetividade profissional à beira do abismo – eles foram treinados para situações limite como essa, mas são ultrapassados. O formato permite aos trabalhadores humanitários ocuparem o quadro simultaneamente, entabulando uma reação coordenada por protocolos – confortar a vítima, providenciar uma ambulância, coordenar rota segura de saída para evitar de ser alvejada pelos israelenses.

A Voz de Hindi Rajab” evolui entre a voz de Hind, significante bruto do real, e a reconstrução física do que se passou no escritório da “Red Crescent”. Em sua produção anterior, “As 4 Filhas de Olfa”, Kaouther Ben Hania trabalhou uma narrativa em três níveis de organização – documentário, ficção e metaficção. No filme sobre Hind, sua intuição foi diferente: o real, em princípio impossível de ser representado, corporifica-se no áudio e ocupa o centro de tudo – restando à esfera simbólica, onde atores e atrizes representam o drama de ouvir uma criança na iminência de uma morte violenta, construir a história onde se processam as identificações captadas pela audiência.

Os principais personagens – Rana (Saja Kilani), Omar (Motaz Malhees), Mahdi (Amer Hlehel) e Nisreen (Clara Khoury) – executam suas tarefas no tempo real posto em cena pela diretora. Omar, que interrompe uma brincadeira com o colega para atender a primeira chamada de Hindi, galvaniza um estado crescente de desconforto emocional, que o leva a conflitos com seus superiores na organização. Mahdi, responsável pelas articulações que viabilizem ambulância e resgate, sabe o que acontece se uma rota segura não é estabelecida, e se desespera. Rana, a supervisora, se esforça para criar um tom familiar e reconfortante com Hind, mas sucumbe diante do embrutecimento progressivo dos fatos. E Nisrine, treinada para dar suporte psicológico ao grupo, mostra-se incapaz, enfim, de conter a deriva da situação.

À época, o drama de Hind integrou o ciclo efêmero de notícias provenientes de Gaza. “A Voz de Hindi Rajab” recupera o tempo da tragédia e restitui a verdade da informação.

5 Nota do Crítico 5 1

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