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A Última Sessão de Freud

Family Affair

Por João Lanari Bo

A Última Sessão de Freud

A Última Sessão de Freud”, filme dirigido por Matt Brown em 2023, é baseado na peça homônima de Mark St. Germain, lançada em 2010 – ambos inspirados em livro de 2003, escrito por Armand M. Nicholi Jr, psiquiatra norte-americano, intitulado “The Question of God: CS Lewis and Sigmund Freud Debate God, Love, Sex, and the Meaning of Life”. Foi de Nicholi, portanto, a ideia de confrontar duas celebridades em torno de questões tão viscerais para a humanidade como Deus e sexo. A peça e o filme transmutaram a ideia para o entretenimento, criando um diálogo imaginário passado nos últimos dias de Freud, em Londres – um diálogo intenso e estimulante, sem vencedores, permeado com triangulações de personagens secundários, porém fundamentais, Anna Freud e Dorothy Burlingham.

No centro disso tudo, claro, paira o carisma de Anthony Hopkins, que encarna ninguém outro que o pai da psicanálise, Sigmund Freud. Se Freud tinha ou não os tiques e ironias que vemos no filme, não importa – passou a ter. Outros atores também se aventuraram em representar o psicanalista, como Montgomery Clift e Viggo Mortensen, até Alec Guinness, com um Freud fantasmático, mas nenhum chega perto de Hopkins. Ele, aliás, já representou no cinema o interlocutor de Freud, o escritor (apologético cristão) e acadêmico CS Lewis: conhecia, portanto, o outro lado da contenda.

Lewis foi uma personalidade respeitada na Inglaterra. Como seu amigo JR Tolkien, era professor em Oxford e especialista em literatura medieval. Tolkien escreveu o “O Senhor dos Anéis”, texto-matriz do popular filme: Lewis, além de inúmeros livros sobre religião e crítica literária, também enveredou pela seara infanto-juvenil, com “As Crônicas de Nárnia”, série de sete romances de alta fantasia que foi traduzida em 41 idiomas e vendeu mais de 120 milhões de cópias – um feito. Em “A Última Sessão de Freud”, organizado em torno do (ficcional) debate entre Lewis e Freud sobre Deus, amor, sexo e sentido da vida – no dramático momento em que Hitler invade a Polônia e inaugura a 2ª Guerra Mundial – o que transparece é um exercício dialético entre dois debatedores que se apreciam mutuamente, embora discordem em pontos básicos, entre eles: Deus, afinal, existe ou não?

Freud, de geração anterior a Lewis e dono de uma obra sem dúvida mais robusta, conecta-se com Lewis movido por interesse e respeito – e é reciprocado pelo escritor inglês. A técnica teatral dos diálogos sustenta a ação, pontuada por flash backs e, sobretudo, pela presença da filha Anna na vida de Freud. Anna tornou-se uma renomada psicanalista especializada em crianças: mas o traço possessivo de Freud em relação à filha era extraordinariamente forte àquela altura, nos seus últimos dias e atormentado por um câncer de laringe (ele veio a falecer no dia 23 de setembro de 1939, aos 83 anos de idade: a Polônia foi invadida no dia 1º daquele mês).

A Última Sessão de Freud” tem no ciúme obsessivo de Freud a variante emocional que extrapola o enredo. Lewis, vivido na tela pelo competente Matthew Goode, torna-se involuntariamente testemunha da neurose freudiana – o pai da psicanálise não hesita em interditar uma singela aproximação amorosa de um de seus discípulos (e biógrafo) mais próximos, Ernest Jones, em direção à filha (sem consulta-la, claro). E o pior: faz de tudo para impedir o florescimento da relação dela com Judith Burlingham, amiga íntima de Anna Freud e coautora de muitos de seus livros. Anna, que foi analisada pelo pai, atravessou tudo isso com altivez: sua devoção por Sigmund era inegociável.

São muitos os relatos classificando Freud de autoritário, possessivo e até misógino. Talvez a maioria deles careça de consistência: alguns, como os de Jung e Adler, ambos ex-colaboradores, são contundentes. Também sou humano, bradou Freud em resposta a interrogações mais agudas de Lewis. Óbvio que a dimensão pessoal não anula a excepcional potência de sua obra, mas as contradições, realçadas pela atuação de Hopkins, são incontornáveis. Humano, demasiadamente humano.

Judith Burlingham, filha do designer e empresário Louis Tiffany, rico e famoso, pegou os quatro filhos no começo da década de 20, em Nova York, largou o marido, cirurgião e maníaco-depressivo, e mudou-se para Viena – a fim de submeter o filho mais velho à análise de Anna. Tornou-se amiga próxima da família Freud e submeteu-se à análise no famigerado divã vienense. Quando o cerco nazista apertou, acompanhou Anna e o pai a Londres, em 1938.

Ela e Anna tiveram uma profícua e duradoura relação, pessoal e profissional, por mais de 40 anos, sem a benção de Freud.

4 Nota do Crítico 5 1

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