A Noiva!

Motherfucking Bride

Por João Lanari Bo

A Noiva!

A Noiva!”, lançado em 2026 e dirigido por Maggie Gyllenhaal, é um acontecimento. A opção da realizadora, e da equipe que a acompanhou nesse frenesi, foi arriscar sem limites, apostando em um empilhamento de ideias, gêneros e temas que desorienta e, eventualmente, afasta o espectador aturdido. Como definiu um crítico esperto, este é um filme que ama o cinema. Ama os anos 1920. Ama o espetáculo. Ama ser estranho.

A recepção do filme, aliás, tem sido oscilante, nos primeiros dias após o lançamento – “A Noiva!” entrou em cartaz simultaneamente nos EUA e Brasil, sem falar de outros mercados. Para os que amam filmes íntimos, com mise-en-scène rigorosa e contida, a narrativa multifacetada e intensa proposta pode surpreender pela ousadia e transbordamento. Sim, transbordamento, puro excesso – um estado que pode ser aproximado, por analogia, com um delírio febril, uma acumulação de situações que se sobrepõem, algumas bem resolvidas (a maioria), outras nem tanto. Mas, quando tudo parece descarrilhar, tudo se reorganiza e voltamos ao regalo.

Trata-se, enfim, de um pastiche em espiral. De início, uma proposição antimetafísica extraída do famoso clássico de Mary Shelley, “Frankenstein, ou o Prometeu Moderno”. Uma criatura, ou o monstro, vivido na tela por Christian Bale, que é resultado de um sopro científico, e não divino. A sacada da escritora britânica foi captar os ventos iluministas do século 18 e fazer a passagem para o romantismo nascente do seguinte, o 19. A sacada do também britânico James Whale foi rodar “Frankenstein” em 1931, década fatídica para a humanidade, e em 1935, “A Noiva de Frankenstein” – mesmo que a noiva, no caso Elsa Lanchester, apareça apenas 3 a 5 minutos, principalmente no final do filme, sem diálogos.

Apesar de curta, foi uma aparição fantasmagórica. Jessie Buckley, a “A Noiva!” contemporânea, é uma excepcional atriz, que atravessa e carrega a narrativa. Sua exuberância é o gatilho para o arrebatamento que nos transporta para o reino da abundância e despropósito. É um fantasma que se corporifica na tela do imaginário cinematográfico. E aqui começam as sacadas da diretora: “A Noiva!” é uma sequência de “Frankenstein”, feito por Guillermo del Toro no ano passado. Mas isso é somente um pastiche pontual, o primeiro de uma colagem de influências que alavanca a história. Como disse a diretora, vou tentar qualquer coisa pelo menos uma vez. E tentou.

Maggie Gyllenhaal escreveu o roteiro colocando a criatura Frankenstein, agora já com a alcunha que o celebrizou – tirada do seu criador, Dr. Victor Frankenstein – reaparecendo 100 anos depois de eclipsado e angustiado pela solidão afetivo-sexual. Foi parar em Chicago, em 1937, em busca de conselhos da Dra. Euphronious (Annette Bening), simpática e com um leve humor sarcástico. A solução passa pelo desenterramento de um cadáver, posteriormente energizado pelos experimentos elétricos da doutora e… eureca, nasce um novo ser!

Irascível, imprevisível, imponderável, repentino, o ser encanta o monstro, mas não se encanta, à primeira vista, por ele.

Ida é seu nome – quando usufruía de uma existência, digamos, abençoada por Deus. Ela integrava um grupo de voluntárias voltadas à aniquilação do mafioso Lupino. Ida e Lupino, a referência emerge no significante acústico – Ida Lupino foi uma destemida cineasta nos anos 40 e 50, autora, entre outros, de “O Mundo Odeia-me”, de 1953, e “O Bígamo”, também de 1953. Daí para frente, os pastiches do cinema (Hollywood, claro) vêm à tona, caudalosamente: “Bonnie e Clyde” e “Sid e Nancy” são explícitos, amantes em fuga, assim como “Assassinos por Natureza”.

E as transições de estilos impactam o nervo do prazer espectatorial. Terror gótico ou musical? história de amor ou manifesto feminista? Ida, agora nomeada como Penélope, não se contem em sua fúria, desafiando comportamentos e convenções. Frank – o diminutivo aparece naturalmente, à medida que a aventura do casal avança – fica comprimido entre a descoberta sensual, amorosa e inebriante, e a angústia que experimenta com surtos de violência e uma nevrose reincidente. Seu alívio, e pour cause, é a contemplação pura e simples de imagens, na sala escura do cinema – e seu ídolo é um simulacro de Fred Astaire e Gene Kelly, que atende pelo nome de Ronnie Reed (encarnado pelo irmão de Maggie, Jake Gyllenhaal).

Desnecessário sublinhar aqui as excelências técnicas que apoiam a empreitada ousada de Maggie Gyllenhaal. Dirigir um filme desses com orçamento nas alturas não é fácil – essa é daquelas experiências que atraem o espectador para uma viagem na razão delirante dos realizadores. Terror, romance, humor, escatologia e arrojo são as premissas.

No final, “A Noiva!” reproduz o corpo de Frank – costurado com partes de outros corpos, mas suturado como linguagem.

Ou, como exclama Penélope, I am a motehrfucking bride!

4 Nota do Crítico 5 1

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