A História de Souleymane
Delivery Man
Por João Lanari Bo
Festival de Cannes 2024
“A História de Souleymane”, realizado em 2024 por Boris Lojkine, é um filme célere, imbuído de um sentido de urgência que beira a sofreguidão. A sinopse do IMDb é certeira e aguda: Souleymane, ciclista entregador de comida em Paris e solicitante de asilo, tem dois dias para preparar sua história para uma entrevista decisiva a fim de garantir residência legal. Souleymane Sangaré chegou em Paris Deus sabe como, vindo da Guiné Conacri, um pequeno país na costa ocidental da África, atravessando desertos na Argélia, prisão e tortura na Líbia, passando pelo Mediterrâneo num barco apinhado de imigrantes e aportando na Itália.
É uma verdadeira odisseia, no sentido pleno da palavra. Não custa lembrar: na Odisseia de Homero o herói perfaz uma trajetória épica, com acontecimentos reais e imaginários, que concorrem para a formação de um ethos pessoal, conjunto de traços e modos de comportamento que conformam seu caráter e sua identidade. No Ocidente o herói de todos heróis é Ulisses, que vagueou durante dez anos até chegar à sua terra natal, Ítaca, depois de ter destruído a cidadela sagrada de Troia, visto cidades e costumes de muitos homens e padecido mil tormentos no mar, quando lutava pela vida e pelo regresso dos seus companheiros.
Os Ulisses modernos são os migrantes que encaram esses enormes desafios em busca de trabalho e, na maioria dos casos, melhores condições de vida para os familiares que ficaram. A Europa durante séculos colonizou terras e povos africanos: agora muitos vão à luta e tentam imigrar, como Souleymane. Conhecemos essas histórias, barcos apinhados de imigrantes, mas “A História de Souleymane” narra de um ângulo diferente: não do ponto de vista dos barcos que chegam, mas do ponto de vista daqueles que empreenderam a viagem. Nesse sentido, é o contracampo do imaginário ocidental.
Não é o primeiro filme que toma essa posição – “Eu, Capitão”, que Matteo Garrone rodou em 2023, é um potente exemplo. A trajetória épica de Souleymane, entretanto, aparece na produção de Boris Lojkine como narrativa oral, sobretudo na sequência final. A história se passa na Paris contemporânea, a maioria das cenas filmadas na rua, acompanhando a corrida frenética de Souleymane para entregar pizza e sanduíches. Tenso e educado com os fregueses – com uma atuação impecável de Abou Sangare, ator não-professional, ele mesmo imigrante de 23 anos – o delivery man percorre os 18º e 19º arrondissements de Paris em sua bicicleta enfrentando toda sorte de situações, realçadas por uma câmera igualmente frenética (também de bicicleta) e cortes bruscos que amplificam a sensação visceral da velocidade.
Como representação da vida de um trabalhador em situação irregular em uma capital europeia, o roteiro de “A História de Souleymane” é didático. Souleymane batalha para obter status de refugiado político e assim regularizar suas condições de trabalho. Ele pedala repetindo em voz baixa o texto preparado por Barry (Alpha Oumar Sow), um guineense que ganha a vida com uma espécie de cursinho para candidatos a visto de trabalho, além de fornecer os documentos necessários para as audiências de asilo. O texto é uma ficção que sugere que nosso herói busca um exílio em função de opressão política: Souleymane se juntou à União das Forças Democráticas da Guiné (UFDG), de orientação socialmente liberal, em resposta à demolição das casas em seu bairro pelo presidente Alpha Condé.
No plano real, o entregador subloca uma permissão para trabalhar, pagando semanalmente um (elevado) percentual do que consegue ganhar. Emmanuel (Emmanuel Yovanie) é o dono da conta, natural de Camarões, trabalha em uma loja de cosméticos e parece bem de vida. Entre Souleymane e Emmanuel, a linha de equilíbrio é tênue. Souleymane, que se mantém gentil até onde é possível, dorme em abrigos providos pelo governo para imigrantes, tendo que pegar toda noite um ônibus especialmente fretado – se perder o horário, tem de se virar dormindo na rua.
A audiência decisiva é o clímax de “A História de Souleymane”. Depois do ritmo intenso, a cena final é estática, Souleymane contando a história ensinada por Barry e defrontando-se com suas memórias da Guiné, seu zelo pela mãe com problemas de saúde mental. O papel da interlocutora francesa, branca e experiente, é interpretado por Nina Meurisse.
Alpha Condé, por seu turno, foi eleito democraticamente em 2010 na Guiné Conacri, depois de décadas na oposição. Reeleito duas vezes, foi deposto em 2021 por um golpe de estado liderado pelo tenente-coronel Mamady Doumbouya.




