A Graça

Concreto Armado

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2025

A Graça

A Graça”, realizado em 2025 por Paolo Sorrentino, traz mais uma vez para as telas aquele padrão de elegância que o cinema italiano costumava brindar o público. Nos idos dos anos de 1950, 60 e talvez 70, muitos cinéfilos, como Martin Scorcese, não hesitavam em nomear a prática audiovisual na península como a melhor do mundo – saindo do neorrealismo pós-guerra aos experimentos formais de cineastas como Antonioni e Fellini, Visconti e Pasolini, para citar os mais notórios.

Filmes que passavam nas salas nobres em todo o planeta – e que sobrevivem, bem ou mal, na entropia do consumo eletrônico do streaming e assemelhados.

Paolo Sorrentino se posiciona como herdeiro dessa tradição. Não é tarefa fácil, contemplar e absorver uma imagem nos dias que correm tornou-se algo complexo e sujeito a dispersões. Nascido em 1970, ele filma sem parar, em vários formatos, alguns títulos marcantes – como “A Grande Beleza”, de 2013, e “O Divo”, de 2008, ambos com seu ator-fetiche, Toni Servillo – outros nem tanto.

Um crítico do Variety sugeriu que Sorrentino poderia ser considerado uma espécie de Fellini-feito-para-TV. Sugestão algo cruel, dessas que supõe um passado imaculado para o cinema, impossível de ser resgatado. “A Graça”, nessa era de autocracias e delírios expansionistas em que vivemos, funciona um pouco como resgate dessa tradição, mas também, e sobretudo, como fábula contemporânea de poder.

Contemporânea, e inteiramente ficcional – mas ancorada em incontornáveis índices de realidade, dos mais íntimos aos coletivos. Servillo é um Presidente da Itália em fim de mandato, Mariano De Santis, com seis meses a percorrer. Viúvo, católico, dialoga com pouquíssimas pessoas – a filha assistente, o ajudante de ordens, o amigo da universidade e Ministro da Justiça, a amiga próxima e crítica de arte, o general assessor e o Papa.

Vive, portanto, apartado do frisson mundano e ligado ao passado – jurista, escreveu um compêndio de mais de 2 mil páginas sobre direito penal, uma verdadeira pedreira que poucos absorveram.

Em termos freudianos, é portador de um superego que atua como juiz interno que freia os impulsos do Id (desejos primitivos) e cobra perfeição do Ego, gerando culpa ou orgulho. Seu apelido, que lhe foi revelado tardiamente, é “concreto armado”.

Este é o personagem que Servillo e Sorrentino construíram. Uma das qualidades conhecidas do ator, o controle minimalista da máscara facial, é um dos fotogramas que sustentam o filme. Um sorriso, ou uma expressão de tormento, guiam a narrativa – ao lado dos belos e austeros planos gerais de interiores palacianos, onde o corpo de Servillo trafega isolado, com figurino impecável, em uma escala mínima, um ponto no espaço.

A idade do ator é 66 anos, mas aparenta 75 ou mais. Contido ao extremo, toma decisões irritantemente lentas e depois de muita reflexão – Presidentes na Itália tem um poder constitucional inferior aos dos Primeiros-Ministros, mas que podem ser decisivos quando a esfera política se fragmenta.

Uma dessas decisões, mencionada de raspão no filme, é motivo de uma estonteante imagem no Scala de Milão – De Santis é aplaudido de pé pelo público quando irrompe na frisa presidencial, em plano aberto e simétrico, um fish-eye arrebatador. Mesmo à distância, é possível distinguir, não obstante, um tormento interior do personagem, sua suspeita que o amigo e Ministro da Justiça o traiu com sua mulher, a amada Aurora.

Na oposição de escalas que o filme trabalha, este é o momento de maior agudeza – a rivalidade com o amigo passa também pelas decisões que estão no pipeline do Presidente, indulto para dois condenados, homem e mulher, por homicídio dos respectivos parceiros, e – a mais pesada, uma lei regulando a eutanásia, que filha e liberais propugnam, mas o Papa é contra.

A Graça”, no plano individual, oscila entre convicção interior, a consciência individual, e as restrições da vida pública, as obrigações a que se submete Mariano De Santis. Mas o Presidente encarna o Estado, pelo menos uma parte importante do Estado – seus juízos e deliberações se sobrepõem às consciências privadas da população. Essa responsabilidade é um fardo que ele carrega, no ambiente monumental e harmonioso em que transita, povoado de paredes e adornos carregados de história.

No final do dia, De Santis revela-se um não-autocrata, alguém que se enxerga como parte de um todo maior, que age com reticências interiores ditadas pela consciência moral.

4 Nota do Crítico 5 1

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