A Batalha da Rua Maria Antônia
A inflação da ditadura em vinte e um planos-sequência
Por Fabricio Duque
Assistido durante o Festival do Rio 2023
Muito se fala agora sobre o plano sequência por conta da minissérie “Adolescência”, mas nunca foi uma novidade. Alexander Sokurov utilizou-se dessa técnica em “Arca Russa” (2002). Alejandro Iñárritu também em “Birdman” (2015). O filme mais recente, que traz vinte e um planos-sequência (decrescentes) como condução narrativa (a fim de simular capítulos-elipses), exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2023, vencendo a categoria de Melhor Filme, é “A Batalha da Rua Maria Antonia”, em que sua diretora Vera Egito faz um “balé de câmeras” para contar os momentos da noite histórica, em outubro de 1968, da “batalha” entre a esquerda e a direita políticas (por dois rivais movimentos estudantis), na Faculdade de Filosofia da USP e na Universidade Presbiteriana Mackenzie; cujo episódio que culminou com o AI-5.
“A Batalha da Rua Maria Antonia” é um exercício de linguagem, de ângulos (de uma câmera na mão), formas, fotografia em um granulado preto-e-branco (numa percepção de película 35mm e num que à moda de “Polytechnique”, de Denis Villeneuve, que por sua vez infere a Nouvelle Vague de Phillippe Garrel – é como se aqui buscasse o tom de ser um arquivo antigo, encontrado e desgastado pelo tempo) e até mesmo nos créditos iniciais (que buscam a conexão nostálgica ao passar em negativo). Para que este filme possa acontecer, de forma estrutural e logística, é preciso muito ensaio e ter cada um dos envolvidos muito engajado e confiante no projeto. E para além da forma, há a necessidade de que o espectador consiga sentir a história (real) em um roteiro que conjugue ação, conteúdo, imersão e aprofundamento. Sim, é um desafio.
O longa-metragem, em questão aqui, é, acima de tudo, uma experiência de “textura”, que encontra personagens pelo caminho, entre suas conversas, questões, argumentos, embates, descansos, momentos afetivos, sexo conceitual (e estético), catarses, crenças e dúvidas, tudo acontecendo dentro de uma universidade (e na rua em frente). Cada um ali, nessa ação revolucionária, “param de ser crianças” e assumem os “riscos”. São fascistas versus comunistas. Muito curioso assistir ao filme, porque vemos que a História parece ser cíclica. Que volta para “assombrar”. Ou o Universo busca mesmo bagunçar a tranquilidade? “A Batalha da Rua Maria Antonia” é literalmente uma batalha, de bombas de Coquetel Molotov, pedras, ovos e ofensas, num custe o que custar que não consegue mensurar a violência. Qual o limite da razão? Aqui, os ânimos são fundidos pela passionalidade. Pitágoras, Aristoteles, democracia, plebiscito, sociedade moderna, liberdade, valentia e/ou ditadura viram uma coisa só, deixam de ser divisões maniqueístas e se tornam reativas, num desejo incondicional, genuíno, pungente, latente, “patriótico” e com tesão, à flor da pele, que “faz a ação”.
Nesse momento, a violência e o ódio adquirem outra coisa, muito além da verdade e do certo. Vão contra a alienação, contra a inércia, contra a indecisão. O filme “A Batalha da Rua Maria Antonia” tenta nos fazer entender os porquês dentro da batalha comovente (e “parcial”). E assim, nós somos convidados a participar desse “banquete de guerra”, que em consequência nos gera questionamentos. De que lado você está? É exatamente essa pergunta que o longa quer fazer, discutir e nos confrontar. Cada personagem aqui representa um arquétipo, mas que funciona pelo elemento do comportamento humano e mais coloquial, ainda que saibamos que o que assistimos é uma ficção e dessa forma vista mais pelo viés teatral. Sim, tudo aqui precisa ser arquitetado a uma distância do naturalismo “normal”, e, por lógica, pode gerar imagens mais amadoras. Até porque é um filme de capítulos-instantes.
Para entender mais o filme “A Batalha da Rua Maria Antonia”, é bom que busquemos na História alguns fatos-causas. Desde meados de julho de 1968, o prédio da USP estava ocupado por estudantes que se reuniam constantemente em assembleias. No dia 2 de outubro, o tumulto começou por conta de um pedágio que os alunos da USP, situada no prédio onde antes funcionava a Junta Comercial de São Paulo, cobravam na rua Maria Antônia – o valor serviria para custear o congresso da União Nacional dos Estudantes. Irritado, um aluno da Universidade Mackenzie atirou um ovo podre contra os cobradores do pedágio, o que levou os estudantes da Universidade de São Paulo a revidarem com pedras e tijolos. Alguns mackenzistas e uspianos acabaram se enfrentando com rojões, foguetes, coquetéis Molotov e tiros. E é aí que entra a narrativa de “A Batalha da Rua Maria Antonia”. Que busca ser uma viagem reconstituída do tempo, alterada pela ficção, pela contemporaneidade e pelo olhar subjetivo (e criativo) de Vera Egito, a maestra de toda essa condução. Sim, este é filme para se assistir nos cinemas, na maior e melhor tela escura, que inclusive serve de metáfora para não nos esquecermos nunca de um dos momentos mais icônicos de nossa História.