Tudo Sobre o Festival É Tudo Verdade 2026
A programação da 31ª edição traz 75 produções documentais de 25 países, que conversam tematicamente sobre política, arte, crises sociais, biografias de muitas naturezas, com destaque para a retrospectiva da estadunidense Vivian Ostrovsky
Por Francisco Carbone
Uma vez por ano, Rio de Janeiro e São Paulo são assolados pelo que há de melhor no cinema documental, do Brasil e do mundo, há mais de 3 décadas; é chegado mais um momento de É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. A edição 2026 é a de número 31 e contempla, como já é tradição, filmes que estrearam em grandes festivais do mundo inteiro, brasileiros e internacionais, em sessões de estreias mundiais e pré-estreias nacionais, em curtas e longas metragens. Mais uma vez, o festival conta com homenagens, recuperação de clássicos e mostras temáticas que sintetizam o que de melhor foi feito no gênero, como uma espécie de farol para a produção, e se realizará entre os dias 9 e 19 de abril em quatro salas paulistanas e três cariocas.
Na extensa lista deste ano, encontram-se 75 produções de 25 países, que conversam tematicamente sobre política, arte, crises sociais, biografias de muitas naturezas, e grandes nomes reconhecidos do cinema, tais como Alan Berliner, Lírio Ferreira, Eliza Capai, Carlos Adriano, Alice Riff, Liz Garbus, Zelito Viana, entre tantos outros. Na retrospectiva, a estadunidense Vivian Ostrovsky criada no Brasil tem 14 de seus curtas e médias metragens exibidos durante o evento. Uma chance rara de conhecer e reconhecer uma cineasta que trafega pelo experimentalismo há quatro décadas, e que filmou mais de 10 países distintos. A diretora Fernanda Pessoa ainda apresenta um filme inédito como forma de marcar um tributo a essa pioneira em sua área.
“A nova safra de documentários reflete o espírito do tempo como em raros momentos”, afirma Amir Labaki, diretor-fundador do festival. Entre eles, as duas aberturas do evento: em São Paulo, “Bowie: O Ato Final“, de Jonathan Stiasny, que percorre a preparação e a realização do último álbum de um dos artistas mais reconhecidos e reverenciados da História da Música; no Rio de Janeiro, “Vivo 76”, de Lírio Ferreira, também em torno de um astro da música, no caso Alceu Valença, na celebração do show icônico de 1976, que rendeu um álbum também histórico.

Não podemos esquecer de um dos espaços onde o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários consegue comprovar seu prestígio internacional, que é a classificação de seus vencedores como regularizados pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas como candidatos automáticos ao credenciamento do Oscar da categoria, em seu ano posterior, tanto em longas quanto curtas, nacionais ou internacionais. Em recente caso, o filme “Quatro Paredes” acabou indicado como melhor longa após a bem sucedida passagem pelo festival brasileiro. No encerramento, o filme “Memória de Os Esquecidos”, de Javier Espada, revisita o clássico “Os Esquecidos”, de Luis Buñuel, de 1950.
Entre os filmes da competição, alguns geram curiosidade instantânea, como “Desfecho”, de Michal Marczak, onde um pai busca seu filho de 16 anos que desapareceu após um passeio de madrugada por uma ponte na Varsóvia. Ou “Entre Irmãos”, de Tom Fassaert, que acompanha a vida conjunta de dois irmãos idosos, que se odeiam e se amam na mesma intensidade. Ainda “Um Filme de Medo”, de Sergio Oksman, quando um documentarista e seu filho pequeno se hospedam em um hotel abandonado em Lisboa, como o de “O Iluminado”, e essas memórias começam a assombrar o menino.
Já entre os brasileiros, o arsenal do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários é ainda mais instigante. A estreia nacional de “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, vem direto do sucesso no Festival de Berlim para o É Tudo Verdade, observar os sonhos fantásticos de meninas do sertão do Piauí, que tentam se desvencilhar do patriarcado ancestral rumo a um futuro de extraordinária liberdade. A diretora Alice Riff volta a investigar o universo escolar, dessa vez olhando professores e funcionários de uma escola pública em Diadema, São Paulo, em “Sagrado”. Rafael Saar encontra mais um ícone da música em “Apopcalipse Segundo Baby”, debruçando-se sobre Baby do Brasil, desde os Novos Baianos até a carreira solo, do sucesso transgressor até as polêmicas de todos os seus tempos. Além disso, temos a raríssima incursão nos longas de Carlos Adriano, um de nossos curtametragistas mais aplaudidos, em “Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas”, mais um ensaio do cineasta, dessa vez em torno da obra monumental de Marcel Proust, “Em Busca do Tempo Perdido”.
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Entre os curtas brasileiros, temos a falência de uma filial do McDonald’s (“Os Arcos Dourados de Olinda”), um olhar sobre personagens do universo cosplay (“Não Existe Ninja de Pele Preta”), uma obra que transita entre o mundo dos motoboys e um protagonista trans (“Natureza Morta”), uma investigação familiar através da racialidade (“Talvez Meu Pai Seja Negro”) e duas narrativas que tratam da vivência indígena, uma pela arte (“Divino: Sua Alma, Sua Lente”) e outra pela violência (“Tanaru”), entre outros títulos.
Uma das seções mais esperadas pelos cinéfilos e estudiosos da área de cinema, os Clássicos É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários deste ano apresenta duas obras que merecem ser redescobertas. A cópia restaurada de “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, de Rosemberg Cariry, nos faz reencontrar com o beato paraibano José Lourenço, no sertão do Ceará. “Wilsinho Galileia”, de João Batista de Andrade, é mais um episódio especial do “Globo Repórter” nos anos 70, quando grandes cineastas promoveram encontros com o Cinema em suas colocações para o programa, aqui em busca do personagem-título, um assaltante e homicida da década, que tem sua história aqui recontada em entrevistas e reconstituições. O filme foi originalmente proibido durante a ditadura militar.
As homenagens prestadas pelo É Tudo Verdade esse ano encontram cineastas emblemáticos do nossa cinematografia que partiram recentemente, como Silvio Tendler (“Os Anos JK”), Silvio Da-Rin (“Missão 115”), Jean-Claude Bernardet (“Sobre os Anos 60”) e Luiz Ferraz (“Em Nome do Jogo”).
Na próxima semana, não percam os textos de alguns dos filmes da programação aqui no Vertentes do Cinema, para também aqui celebrarmos esse recorte que nem sempre é valorizado como deveria, mas cuja importância, tamanho e longevidade do É Tudo Verdade ajuda a proteger. É tempo de documentar.



