Seymour Hersh: Em Busca da Verdade
Jornalismo sem filtro
Por João Lanari Bo
Festival de Veneza 2025
“Seymour Hersh: Em Busca da Verdade”, documentário dirigido por Mark Obenhaus e Laura Poitras em 2025, resgata a história de um desses indispensáveis heróis do jornalismo, sobretudo na era massiva de fake news que afeta a humanidade pós-internet: Seymor Hersh, um obsessivo e incansável repórter investigativo, pedra no sapato dos poderosos e mentirosos contumazes. Nos dias de hoje, com a fragmentação dos meios informativos – muitos preferem acreditar nas redes sociais em vez da imprensa consolidada – e do próprio ciclo efêmero das notícias, resultado da velocidade dos meios suportados pelas novas tecnologias digitais, ele é um tipo raro.
Claro, os obsessivos contemporâneos pela verdade jornalística continuam a existir, apesar dos pesares. Laura Poitras, diretora de “Cidadãoquatro” (2014), sobre as incríveis revelações de Edward Snowden acerca dos esquemas de vigilância secreta de cidadãos mundo afora, especialmente nos EUA – ganhou um Oscar pelo filme – enquadra-se, ela mesma, nessa categoria. Mesmo assim, foram necessários vinte anos, desde o primeiro contato, para convencer Hersh a conceder entrevistas. Entre outras razões, por que não queria falar…dele, como acontece com os egos inflados que revisitam suas histórias. Seu interesse, como reiterado no documentário, é focar única e exclusivamente no trabalho jornalístico como meio de acesso à verdade dos fatos.
Alguns poucos momentos de contextualização sobre infância e família constam de “Seymour Hersh: Em Busca da Verdade” – são rapidamente superados por um entrevistado implacável com sugestões “psicanalíticas”, como define. Essa e outras abruptas intervenções, que os realizadores tiveram o mérito de manter no filme, mostram Hersh sem a menor paciência para explorar historietas pessoais por detrás das suas investigações. Com 88 anos, ele sustenta um tom afiado e desafiador, que certamente foi fundamental na sua prática. Mas também revelou um aspecto privado crucial: sua mulher, de 60 anos de casado, é psicanalista. Embora não seja entrevistada no documentário, ela o ajudou a superar algumas de suas histórias mais difíceis:
Casei com a pessoa certa, que consegue me acalmar e me impedir de entrar em completo desespero porque eu estava escrevendo coisas terríveis.
E não foram poucas coisas terríveis, desde os tempos que começou cobrindo crimes da máfia em Chicago. Nascido em 1937, não teve tempo para cobrir a 2ª Guerra Mundial – em compensação, de um salto em sua carreira quando expôs, em 1969, o massacre de My Lai, um dos mais trágicos eventos da Guerra do Vietnam, quando o exército norte-americano tentou encobrir um incidente em que soldados mataram centenas de civis vietnamitas. Assassinato a sangue frio, de mulheres e crianças inclusive, a reportagem foi essencial para virar o jogo no debate político e galvanizar o movimento antiguerra em seu país. Com a reportagem ganhou o Prêmio Pulitzer em 1970.
“Seymour Hersh: Em Busca da Verdade” mostra também como ele foi importante na famosa série de denúncias conhecidas como Watergate, de autoria de Bob Woodward e Carl Bernstein, do Washington Post. Hersh, a essa altura no New York Times, revelou que que os chamados “ladrões” que invadiram o escritório do Partido Democrata estavam sendo pagos pelo do Comitê para a Reeleição do Presidente Nixon. Em uma das gravações de Nixon e Kissinger que vieram à tona depois do episódio, o Presidente refere-se a Hersh com a célebre frase – esse filho da puta é um filho da puta mesmo, mas geralmente ele está certo, não é?
Não poderia haver instância mais legitimadora para o seu trabalho. Entre outras encrencas que explicitou estão práticas do próprio New York Times, que acabaram levando-o a se demitir do jornal. Hersh estava mergulhado nas falcatruas da poderosa corporação Gulf + Western e o Times hesitou – o jornal, afinal, também é parte desse ecossistema.
Mas o jornalista teve de assumir erros ao longo dessa cruzada – ele admite que foi “enganado” por documentos falsos sobre o suposto affair de John Kennedy e Marilyn Monroe, que descoberto a tempo e cortado de seu livro de 1997 sobre o assunto. Outro deslize foi não informar sobre os métodos repressivos cruéis do ditador sírio Bashar al-Assad, uma “fonte” com quem mantinha relação amistosa.
Durante as entrevistas, Hersh interrompe para conversar com sua fonte atual em Gaza – ele segue antenado, definitivamente. Entrou para a plataforma Substack, e escreve o que acha que vale a pena, sem pressões, jornalismo sem filtro, como diz – tem mais de 200 mil leitores regulares. Não recebe o alto salário que poderia pleitear com sua experiência, mas continua independente.


