Sabes de Mim, Agora Esqueça
Novos afetos, novas vozes
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
A abertura de “Sabes de Mim, Agora Esqueça” é como a fuga de um pesadelo, ou melhor, como se estivéssemos em um pesadelo de verdade. A distopia que logo será ilustrada nesse momento inicial já impõe sua presença como catalisador do horror, ainda que o mesmo esteja afastado dos domínios do grupo de protagonistas. Não é algo que deixou de existir, mas sim algo que não pode ser o catalisador absoluto da dor, levando em consideração que estamos em cena com um material humano dos mais ricos. Mas se desenrolar em todos os lugares para onde aponta, é a garantia de um futuro – estou falando de sua cineasta, Denise Vieira, porque a obra mesmo já está em um campo muito extremado de sua entrega possível.
Estamos falando visivelmente do filme que mais mobilizou a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026 até agora, ou o mais próximo possível que um filme pode chegar da unanimidade nos dias de hoje, onde esse conceito foi abolido. “Sabes de Mim, Agora Esqueça” parte de uma observação particularizada para se abrir em um cenário distópico-coral, onde a vida de cada personagem contribui para o todo, e enriquece gradativamente o painel que se vê. Partindo de um elemento comum (a protituição), o filme retira os julgamentos da frente para debater outros aspectos, mais mundanos, dessas vozes marginalizadas em todos os lados, e que o filme ainda as situa em espaço de ainda mais afastamento geográfico e emocional.
A maneira como Vieira cria aquele espaço cênico, e encerra suas personagens ali sem conflito, aceitando o destino porém também donas deles, é uma das maneiras mais impactantes de contar tais histórias. E não estou falando a respeito de um certo dado de contemporaneidade; quantas vezes o cinema brasileiro já filmou um, com perdão da expressão, puteiro? E quantas dessas vezes esse local não foi palco de violência e/ou glamourização? O que está sendo visto em “Sabes de Mim, Agora Esqueça” é um olhar naturalista a respeito daqueles corpos e vivências, mas as vozes (tanto das personagens quanto da autora) estão a fim de ampliar o que se conta. Porque o tratamento naturalista que é planejado em um campo, por outro lado também evidencia uma exploração do fantástico.
Vieira é arquiteta de formação, e surgiu no cinema como diretora de arte, tendo sido premiada por suas parcerias com Adirley Queirós (“Branco Sai, Preto Fica” e “Mato Seco em Chamas“). Preciso contextualizar essa relação, para que fique claro sua ligação com o Distrito Federal, mais precisamente a região da Ceilândia já célebre dos filmes dele. É nesse espaço macro que “Sabes de Mim, Agora Esqueça” está inserido, e que nossa análise acaba por demarcar território. Apesar disso, existe uma delicadeza nas costuras do que é visto, e que não pode ser confundida com ausência de força estética ou imagética, e sim com um afeto estendido entre todos em cena, mesmo diante de uma brecha para a exploração sexual.
Dito isso, “Sabes de Mim, Agora Esqueça” é uma peça de Cinema cuja memorabilia não se encerra nas discussões da arte em si, de maneira exterior a ele. Seu olhar reflete aquele ambiente, a construção dos ambientes e a evocação de cada objeto para as personagens, mas principalmente o contexto que as une ali, que adentra a universalidade do tema para desconstruí-lo. Rubia, Milena e companhia não são apenas profissionais do sexo, ou melhor, elas não são isso, no sentido de isso não as defini-las; existe humanidade para além do que elas dizem, e de como se relacionam. Vieira se preocupa também com o micro, seus sonhos inconfessáveis (mas também os confessáveis), suas mediocridades diárias, e a união que nasce do cotidiano, a conexão que nasce, o elo que é fortalecido pela empatia mútua.
Muito já foi falado da recepção do filme por aqui, em sua estreia mundial. Mas não precisamos depender do futuro para apreciação de “Sabes de Mim, Agora Esqueça”, porque o longa de Denise Vieira não se acomoda em uma tentativa de crescimento vindoura. Existe uma reflexão para acontecer a respeito desse filme, que no calor e na correria de um festival não é o momento mais apropriado de ser feito; a relação das personagens femininas com as masculinas, por exemplo. Apesar feminino estar no centro narrativo, o roteiro de Vieira não apresenta autômatos nos espaços masculinos. São momentos setorizados que engrandecem o quadro geral, como o personagem da palavra-chave (“sombrinha! sombrinha!”) e o tipo que se relaciona com Milena ao final; o tempo de cena não equivale ao que tais personagens doam para a narrativa geral, até apresentando também personagens não-arquetípicos.
No plano das ideias, o conceito de um espaço-umbral onde tais personagens estejam de passagem antes de uma pretensa evolução dramática tem um fascínio já testado, mas que aqui exibe também um dado de fantasmagoria, na maneira como tal espaço devora tais personagens, e na perseguição empreendida por um grupo opressor às protagonistas. Rasga o dito naturalismo esses espasmos de fantasia, que evocam o melhor dos cinemas dos anos 70/80 sem perder a urgência da comunicação política. Ao escolher o campo liberto para abrir e encerrar seu filme, Vieira faz de “Sabes de Mim, Agora Esqueça” um libelo não-estanque para a redemocratização das vozes e dos espaços ditos marginalizados pela exclusão do sexo. O resultado, como todos já reverberam, é um filme que estará nas aulas e nos debates dos próximos 5, 10, 20 anos. Nasce um clássico.


