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Riefenstahl

Leni, a perpetradora

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 2024

Riefenstahl

Riefenstahl”, documentário de 2024 sobre a conhecida cineasta e fotógrafa Leni Riefenstahl, é mais do que uma visita ao passado nazista que assombra a Alemanha (e o mundo) – é uma exposição nua e crua que revolve objetos e dejetos dessa herança histórica que chamamos de nacional-socialismo, ou simplesmente nazismo. Herança que permeia muito a nossa combalida contemporaneidade, muito mais do que supõe a vã consciência. A única diferença significativa dos loucos de meados do século 20 com os loucos atuais é que, naqueles tempos, não haviam arsenais nucleares, de capacidade destrutiva que ninguém sabe, ou sequer imagina, o alcance real.

De resto, sobressaem as semelhanças. Leni Riefenstahl, que nasceu em 1902 e viveu 101 anos, tornou-se uma espécie de legenda viva dessa confluência histórica – se alguém foi ao mesmo tempo testemunha e artífice do século, é ela. Seus filmes mais famosos, “Triunfo da Vontade” (1935) e “Olympia” (1938), este último sobre os Jogos Olímpicos de Berlim, em1936, são frequentemente saudados como construções estéticas inovadoras e arrebatadoras, embora sejam, indiscutivelmente, perversas construções de propaganda nazista. Ou seja, portadores dos vícios estéticos que tanto entusiasmavam Adolf Hitler – corpos treinados, performances meticulosamente coreografadas, veneração do vitorioso e do sublime, sempre anda de mãos dadas com o desprezo pelos fracos e doentes, como define o diretor de “Riefenstahl”, Andrés Veiel. Higienização total da imagem, uma técnica que tomou de assalto a cultura visual da humanidade e que desemboca, segundo Veiel, nos filtros do Instagram, na obsessão com a beleza e a vergonha corporal.

Boa parte do documentário é ocupada por uma Leni irritada com questionamentos crescentes, depois da guerra, sobre suas relações próximas com Hitler e Goebbels, o comandante da mídia nazista, aquele que teria proferido a célebre sentença quando ouço a palavra cultura, saco logo o revólver (a IA informa que não foi ele o autor, era uma fala da peça “Schlageter”, de 1933, do dramaturgo nazista Hanns Johst). Leni tornou-se com o tempo uma reincidente propagadora de fake News sobre essas relações. Goebbels certamente foi fundamental para a transição que ela fez de atriz de sucesso a realizadora favorita de Hitler – mas não se esquivou de assediá-la sexualmente, como fazia habitualmente. Sobre Hitler, Leni negou a vida toda que leu o infame “Mein Kampf”, mas os realizadores de “Riefenstahl” descobriram uma entrevista de 1934, em que ela dizia:

Leve o livro com você. Durante cada intervalo de filmagem. No trem. À beira da água. Na floresta. Depois da primeira página, eu me tornei uma nacional-socialista convicta.

O livro foi comprado em uma livraria a caminho do set de filmagem de “A Luz Azul”, de 1932, em que Leni faz o papel principal, cuja sinopse diz: uma jovem que vive isolada em um vilarejo nos Alpes e é a única pessoa capaz de chegar a uma caverna no topo da montanha, onde uma misteriosa luz azul aparece nas noites de lua cheia. Hitler e Goebbels apreciaram muito o filme, clássico do gênero popular entre os alemães – os “filmes de montanhas” – e logo a seguir, uma vez no poder, trataram de convocá-la para registrar o evento faraônico de celebração nazista, em Nuremberg, na arena igualmente faraônica desenhada pelo arquiteto favorito de Hitler, Albert Speers. Leni e Albert tornaram-se próximos, eram os “artistas” da entourage hitlerista.

Riefenstahl” tem por trás de seu resultado uma extensa pesquisa de documentos, filmes, fotos, manuscritos, memórias inacabadas, pequenas notas e mesmo horas gravadas na secretária eletrônica de Leni. Foram 700 caixas, depositadas na Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, colocadas à disposição da produção do filme em troca da organização do inventário do acervo. Dentre as raridades, imagens das excursões fotográficas feitas por Leni a partir de 1962 no Sudão, para captar imagens de poderosos guerreiros, jovens e belas mulheres do povo Nuba – posteriormente editadas em livros, admirados por Andy Warhol e acólitos em Nova York.

Depois de uma longa vida e um casamento com um parceiro 40 anos mais moço, Leni caminhava, na sua fantasia, para um legado de uma artista que atravessou épocas turbulentas, mas que se manteve apolítica. Não é bem assim – se essa imagem sugere que ela foi uma gênia, mas também uma idiota política, para a cineasta e escritora Nina Gladitz, crítica contundente de Leni Riefenstahl e entrevistada no documentário, é o contrário: ela não foi uma artista excepcional, mas era uma gênia política.

4 Nota do Crítico 5 1

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