Recife Tem um Coração
Amar e ser amado: eis a questão
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Não é todo curta-metragem que consegue absorver tão fortemente um personagem a ponto de nos mostrar possível que um estudo de personagem em longa duração fosse necessário para ele. Silvo Silva, cantor que se transformou em um fenômeno do brega graças às redes sociais, tem um perfil acurado feito por Rodrigo Sena em “Recife Tem um Coração”, um dos mais sensíveis filmes a passar por Tiradentes esse ano. E não estou falando exclusivamente pela leitura que é feita de sua personalidade, mas da maneira como Sena lê toda a geografia marginal do Recife, colocando no mapa algo além da humanidade dessas figuras, como resgatando a importância geográfica da região, que resplandece imageticamente sob sua lente.
Ao mesmo tempo em que debruça-se sobre Silva, suas dificuldades, seus sonhos não realizados, sua perseverança, Sena não esconde seu interesse por tornar a figura não apenas protagonista, como componente social e reflexo da mesma. Não é incomum que Silva apresente uma breve biografia, que inclua a separação e seu novo lugar na sociedade. Nós ouvimos e vemos: uma casa que se confunde com uma pedreira, as duas coisas são uma só. É um registro conseguido graças ao empenho da realização de “Recife Tem um Coração”, porque o que seria um estudo de personagem, aqui, se confunde com o que se vê e prescinde das palavras.
São pequenezas de uma cinematografia que busca uma identificação com um personagem não apenas com o que ele é, sua imagem que afeta (ou não) o público a partir da imagem. Essa mesma construção de imagem, por vezes, sai do rosto e dos olhos para descobrir esse homem em outras instâncias; a casa, os objetos, a cidade, as ruas, a feira. Tudo ali se confunde com o que Silva é, porque ele, assim como tudo em cena, é dúbio na abordagem; a partir inclusive do título, “Recife Tem um Coração”, sabemos que sua história se confunde com um estado de espírito de um lugar, de uma desconstrução de um olhar para essa cidade específica, medida por um afeto latente, mas que o filme transmuta com alguma (muita?) melancolia.
No entanto, Sena é extremamente hábil em deslizar suas lentes e narrativa para diversos lugares, não apenas realizando um lugar específico de gênero e tom, mas tentando agregar múltiplas realidades ali. “Recife Tem um Coração” passeia pelo espectador com carisma inegável, mas não deixa de estar em conflito com uma certa dose de tristeza por um certo todo. Isso não está impresso nos planos, e nem precisava, mas sim existe um vazamento nas entrelinhas de quem se propor a observar. É como se mais de um filme habitasse esse espaço, um de comunicação direta e pulsante com a vibração, e outro que está nas micro situações, e que só serão acessadas a partir de um certo entendimento, um certo olhar.
Nada do que vemos em “Recife Tem um Coração” é gratuito, e Sena realiza com perspicácia esses meandros que não eram esperados para esse relevo que temos o hábito de encontrar. Porque é uma leitura pouco romântica de seu personagem e de sua cidade, sem cair para o melodrama mas entendendo que esse é um filme cujas abordagens saem da atmosfera esperada. Um olhar corajoso especialmente para a cidade como ela é vendida, porque escolhe o lugar menos óbvio, onde o esfuziante parte de um caráter emocional, e não de uma projeção prévia ao que é vendido. De artesania complexa, esse é um dos curtas metragens de composição mais complexas recentes, porque não quer perder nenhum aspecto possível sobre seu protagonista e o espaço que ele habita. E o mais impressionante é que ele consegue.


