Mostra Online Premiados Super Curta 2025

Politiktok

Guerra não tão invisível assim

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Politiktok

Criado na China em 2016, o TikTok foi formatado para ser uma plataforma de difusão musical; no auge da pandemia, explodiu em todo mundo pelos mesmos motivos pelo qual tantas febres foram iniciadas no período, estando hoje no seu décimo aniversário. Se há 5 anos atrás não poderíamos avaliar este sucesso de proporções globais, que dirá que ultrapassa um bilhão de usuários e que em algum momento, na Mostra de Cinema de Tiradentes, um filme feito sob às suas bases estreasse na competição. “Politiktok” está entre nós, e junto com ele os predicados que poderiam ser anunciados de um filme como esse: a apropriação política que ocorreram nas redes sociais como um todo promovem uma esperada catarse, entre eles em especial, de modo que algo tão sui generis como esse filme fosse capaz de nascer.

O filme é uma grande colagem do aplicativo, exatamente como se estivéssemos na plataforma por quase 2 horas. Exibido na vertical, o filme assume o controle de nossas ações para nos colocar na experiência real do usuário. Logo, não se trata de uma experiência confortável; o resultado, no entanto, é mais uma maneira de adentrar o universo já tradicional dos documentários recentes: a polarização política enquanto matéria-prima narrativa. Álvaro Andrade Alves assina a concepção geral do projeto, no que isso pode ter de mais autoral. Muito rapidamente entendemos o quadro geral do filme – mergulhar de cabeça nas redes sociais, cujas saídas bem mais radicais poderiam ainda chamar o resultado final de Cinema?

O quanto isso é funcional nos dias de hoje, enquanto elemento cinematográfico, é algo que Tiradentes costumeiramente nos apresenta, sempre em propostas de alguma radicalidade. No caso de “Politiktok”, o encontro com a obra, pela tradição do próprio festival, é um bicho estranho, mas não muito; suas estratégias de comunicação inclusiva são as mesmas do próprio aplicativo. Ou seja, estamos diante da tela grande com a mesma volúpia por imagens quanto estamos na vida; é a ferocidade digital mostrada tanto pela via de quem realiza, quanto de quem é o  consumidor do material. A diferença é a experiência coletiva que se ocupa dentro da esfera do cinema.

Mas o que podemos dizer para quem não foi moldado por essa nova realidade de mercado? “Politiktok” é, definitvamente, um filme excessivo, como o da violência do qual faz parte, da massificação de discursos, quando nos perdemos nos muitos caminhos que nos levam aos mesmos dentro da internet e das redes sociais. É um filme que evidencia o poder do algoritmo enquanto ferramenta perigosa nas nossas vidas, pela maneira com que tenta doutrinar e pautar discussões em conteúdos exclusivistas. Essa é uma porta de leitura satisfatória para uma produção que não encaramos todos os dias, e cuja validade nunca se compreende para além desses espaços de debate provocados pelo entendimento massificado de uma mostra de cinema.

Na análise crítica, os 110 minutos de duração soam exagerados, para além das intenções (repito, não apenas bem sucedidas em realização, com principalmente em conceito). Com uma duração mais, digamos “tradicional” do escopo de um festival de cinema – que abarca os 75 e os 85 minutos – “Politiktok” compreenderia seu fenômeno da mesma forma, com a mesma eficácia e a mesma sensação de esgotamento que acompanhamos. A selvageria política, o uso indiscriminado de massas de manobra para definir os rumos eleitorais do país, a profusão de olhos, bocas, vozes, imagens, discursos, estaria mantido e o filme seria ainda mais propositivo – ainda que sim, a provocação seja legítima, exatamente no que o tempo estendido realiza.

3 Nota do Crítico 5 1

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