Patrulha Maria da Penha

Jogo de contradições 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Patrulha Maria da Penha

Em Alagoas, foi criada há 8 anos uma divisão dentro da polícia militar para cuidar das mulheres vítimas de agressão física ou verbal, que se encontram em programa de medidas protetivas e realizam o cadastro dentro desse setor. Denominada Patrulha Maria da Penha, o efetivo batalha todos os dias nos chamados que ocorrem por suas cadastradas, servindo de maneira efetiva e eficaz em sua função. Em sua defesa, nenhuma mulher das mais de 6 mil assistidas pelo programa, chegou à fatalidade. “Patrulha Maria da Penha” é uma produção em competição no É tudo Verdade que mostra o cotidiano de seu efetivo, e embora encha de orgulho por seus feitos, não deixa de esconder a melancolia pela administração.

O diretor André Bomfim dirigiu em 2019 um longa-metragem sobre o sistema prisional em Rondônia, premiado no Cine PE daquele ano, “Ainda Estou Vivo”. Uma narrativa curiosa, cheia de delicadeza em cima de uma realidade pouco conhecida e divulgada. O mesmo é feito em “Patrulha Maria da Penha”, que segue esse grupo que se empenha, física e psicologicamente, na proteção e cuidado de um grupo de mais de 4 mil mulheres em situação de violência cadastradas no sistema do programa durante o ano em que o filme é realizado. Com a aproximação do filme, descobrimos então que as qualidades do projeto são evidentes, mas os problemas mediante sua realização não são menores.

Dessa maneira, “Patrulha Maria da Penha” repercute trabalho duplo, mas com função agridoce. O filme é uma celebração da força dessas mulheres e da iniciativa coletiva dessa manutenção, é também um retrato do abandono do Estado, que ao mesmo tempo ajudou a criar e tratar de desmantelar a mesma iniciativa. Bomfim traduz isso com igual competência para os dois lados; tanto existe a efusividade dos encontros, a força dessas mulheres que lutam de dois lados pela sobrevivência e sua intensa dedicação, como igualmente filma a tristeza de perder oportunidades todos os dias de crescimento e recomeço. Eu diria que a produção inclusive conta com um dos melhores e mais felizes trabalhos de cartela do cinema recente, onde sua função vai além de informar, ao recriar para a narrativa seu teor melancólico.

Através do uso das cartelas, o espectador entende as derrotas de seu quadro de funcionários, mês a mês. Também faz parte da contradição a reforma do espaço onde o projeto está abrigado, que representa por um lado o interesse em evoluir, e por outro traduz em seu atraso e abandono, o estado das coisas. A contradição que prejudica o trabalho é o que abrilhanta “Patrulha Maria da Penha”, que dessa forma não consegue ser chapa branca para lado algum, porque existem contradições em todos os temas que o filme apregoa. A montagem define um ritmo fino para o todo e não deixa o público se concentrar em repetição, já que a cada nova passagem, a situação se torna ainda mais aguda e triste.

“Patrulha Maria da Penha” trabalha nossas certezas de maneira abstrata, porque filma a dedicação das profissionais, sua entrega, seu cuidado ao que fazem, para em cada chegada de nova cartela, desmoronar tais afirmações. São pessoas sim conectadas ao que fazem, profundamente tocadas em seu ofício como raramente acontece, mas cujos sonhos e circunstâncias acabam por interromper o que antes parecia concreto. O caminho é bifurcado, e o filme nos condiciona ao movimento de sempre torcer por algo que está em rota de término; existe uma cena que não sai da cabeça após a sessão, que é o encontro emocionado com uma assistida que se sente segura pela presença dos profissionais. Como ela terá recebido a informação do rompimento de um acordo emocional?

Essa malha com que o filme é construído o eleva para longe da repetição possível das ações de seu novelo construído sobre essa base. “Patrulha Maria da Penha” flagra, mais uma vez, o talento de Bomfim em extrair de seus personagens o máximo de empatia e compreensão, uns aos outros e no acordo tácito com o espectador. Ao longo da duração, estamos na gangorra dos eventos elaborados nas bordas da contradição narrativa, mas cuja ideia estética não se perde. Atenção para o trabalho de luz nas cenas noturnas, de riqueza clara para esse projeto.

3 Nota do Crítico 5 1

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