Para os Guardados
Distâncias interrompidas pela humanidade
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Existe uma sinergia entre os realizados periféricos mineiros em olhar para um determinado ponto de sua estrutura: o sistema prisional e a exclusão provocada por ele, que gera as relações entre seus personagens, o nascimento das delicadezas e a quebra do embrutecimento imaginado diante de uma ideia clichê. “Para os guardados” é uma experiência de catarse sossegada, porque é um filme que se soluciona pelo aparente mínimo desenvolvido em cartas, em ações práticas, em trocas e na busca por uma empatia típica das periferias, que se amalgamam de maneira diferente à qualquer outra zona geográfica. É um olhar de identificação e reconhecimento pelo que também é dividido em experiência, nas relações comuns, em um projeto de manutenção das relações que o Estado quer destruir.
A dupla de cineastas Desali e Rafael Rocha dirigiram um curta juntos que teve uma repercussão interessante, “Estudo para uma Pintura: O Lavrador de Café”, o que nos carrega para cá e a visão que os rapazes tem de uma cena que os toca em particular porque conversam com sua própria história e vivências. Na linha de chegada de“Para os guardados” existe essa dinâmica que temos algum acesso prévio, mas o que eles constroem aqui é genuíno, porque é construído não apenas conectado ao cinema, mas principalmente ao que é humano. Através do encontro com esse protagonista humanista (mas principalmente muito empático), o filme revela suas molas de execução.
Fael faz kits para envio de homens e mulheres em situação de cárcere, com itens de primeira necessidade. Por trás desse lugar solidário, está um homem que une as pontas de vínculos entre a liberdade e a prisão. Através de cartas trocadas e áudios de impacto inegáveis, “Para os guardados” nos faz acompanhar, de maneira pouco usual, as relações que perpassem essas realidades. Não vemos os rostos, mas ouvimos as vozes e as verdades desses homens e dessas mulheres jogados em um esquema que não está em julgamento pelo filme. Nenhuma ação ou reação é descrita pelo filme, nenhum feito é debatido; o que está em jogo são os limites de humanidade que são negados a pessoas que já eram periféricas antes de qualquer crime.
O que está posto aqui são esses laços e as histórias que nascem dessa espécie de acolhimento à distância, e que ainda assim constrói histórias muito reais e próximas. Mas os diretores também manipulam a maneira de captar suas imagens, para que tenhamos intimidade com o que estamos acompanhando. Não se trata de um olhar documental tradicional, mas de uma aproximação quase com um cinema mais naturalista, de imagens mais lavadas, como se estivéssemos acompanhando um retrato íntimo daquelas histórias. Não é como se fora uma ideia de cinema amador, ou câmera caseira; o que é conseguido aqui é uma forma de quase nos alinharmos com o protagonista em suas tarefas comuns, como testemunhas de suas ações.
Com o anexo dos áudios, da imagens das cartas, da conexão entre as duas propostas, “Para os guardados” se mostra maior do que poderíamos prever, ao acompanhar sinopse e ideia. Essa forma seca com que tais elementos são fotografados, a maneira despojado com que as cenas são compostas e percebem um acesso facilitado para tais personagens, aproximam o espectador não de seus relatores, mas de seus relatos. Essa é a chave de acesso a um filme tão sincero em sua vontade de comunicação, em sua singeleza diante da falta de perspectiva emocional. Se o que é arrecadado supre o básico da existência, a troca é completa pela vontade de reconhecer no outro o que há de mais benevolente nos diálogos e na verdade que extrapolam deles.


