Obeso Mórbido
Um corpo que fala
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Um ciclo se fecha para Diego Bauer com “Obeso Mórbido”, que ele reencontra oito anos depois de “Obeso Mórbido”. Explicando: em 2018, Bauer lançou seu primeiro curta-metragem, um filme que o levou a inúmeros festivais, do qual ganhou alguns prêmios; agora em 2026, ele apresenta um longa-metragem, digamos, inspirado no curta, mas de desdobramentos e discussões muito amplificadas. Mais uma vez, o autor olha para si para reverberar o mundo ao redor, e com isso discutir bem mais do que a ditadura da balança. Isso está em seu filme, mas restringi-lo a esse aspecto é ignorar uma quantidade generosa de elementos que estão no radar, do qual o filme não se cansa de apontar. Muitos lados? Talvez, mas todos são levados até os extremos da discussão.
Em tese – e fora da tese também – esse é um estado de personagem moldado pelo seu autor de maneira direta. Está na tela seu rosto, e principalmente seu corpo, ilustrando um personagem com o seu nome. A autoficção tem sido uma ideia cada vez mais atraente dentro do cinema brasileiro, e “Obeso Mórbido” é uma maneira de encenar a própria realidade desconstruindo a mesma. Bauer está em cena o tempo inteiro, falando de particularidades que já foram suas, ou que nunca deixarão de ser suas, e ao mesmo tempo ficcionaliza essas mesmas questões para tornar mais universais suas experiências. A universalização de uma dor muito mais intrínseca que um simples “filme sobre falar do corpo e/ou do horror da balança”.
Bem na superfície, Bauer fala sobre inseguranças de muitas ordens; talvez, de todas as ordens. “Obeso Mórbido” não é um filme moderno, mas aborda temas que estão em todas as conversas hoje, e não se encerra no universo masculino em exclusivo – embora sim, suas flechas mirem principalmente esse sujeito. Ainda assim, o Diego do filme não percebe que suas dores vão além de estar ou não com o corpo perfeito, e não percebe que a autoimagem jamais o deixará se enxergar nesse lugar de perfeição. O espectador segue sua aflição muda, sem perceber o que está de frente para ele: a prostração com o presente o impede de prospectar qualquer tipo de futuro.
Temos um protagonista incomodado, que incomoda em seus erros, seja nas ações ruins, nos discursos infelizes, nas movimentações erradas. Essa inadequação que o persegue é sintoma de um mal estar coletivo hoje, a respeito dos jovens adultos de maneira universal. Um dos muitos méritos de “Obeso Mórbido” é compreender o estado das coisas em uma parcela da sociedade, que até teria acesso a algumas oportunidades, mas que não sabe conviver com as frustrações do eterno querer. As válvulas de escape não funcionam mais, seja o prazer sexual, o conforto vazio da comida ou o encontro com a realização profissional. Na verdade, nenhuma dessas situações se mantém em pé porque não refletem a bagunça que ele protagoniza, por dentro e por fora.
Corajoso, “Obeso Mórbido” é um filme que não teme silêncios e situações pouco verbalizadas. O filme confia no poder de entendimento do espectador para lidar com o abstrato, com o que é emocional puramente e não tem explicação verbal, ao mesmo tempo em que confronta o personagem com as verdades alheias. Sem recorrer a objetificação de nenhum corpo, o filme mostra homens em nudez frontal em motivação completamente diferente em cada cena, mas que acima de tudo trata como natural tais imagens. Estejam os corpos em descanso ou em riste, o que vemos ali não provoca vergonha per se; as sensações provocadas pelo que é construído – o desejo, o constrangimento, a confiança, a simplicidade – não advém da nudez, mas da cabeça; está nela 100% dos problemas e das soluções de todos.
Ainda que invista em uma espécie de humor da incompreensão, uma graça meio desconfortável, “Obeso Mórbido” não deixa de mostrar sua verdadeira face, a de uma melancolia que está inerente ao que seu personagem faça – ela faz parte dele. Talvez por excesso de pensamento, talvez Diego só precise relaxar, mas como isso é possível em um mundo de adultos, de contas, de frustrações, de medos, de ilusões que nós construímos? Com uma fotografia impressionante e que não se dobra ao óbvio campo das luzes e dos espaços e movimentações, o que Bauer promove através dela é essa sensação que se divide entre alguma assepsia e um grito de angústia pelas cores e pelas vias. Uma daquelas experiências não apenas marcantes, mas que evidentemente cresce a cada novo pensamento.


