Noite e Neblina
Arquivando o Inesquecível
Por João Lanari Bo
Festival de Cannes, Festival de Veneza
“Noite e Neblina”, média-metragem (32 min) realizado por Alain Resnais em 1956, é um marco na cinematografia sobre o Holocausto. O filósofo Theodor Adorno dizia que escrever poesia após Auschwitz é um ato bárbaro, pois a arte corre o risco de se tornar mero ornamento ou de silenciar o horror. Quando o filme foi feito, uma década após o fim da guerra e a descoberta dos campos, a memória era recente, embora o trauma histórico, diante de uma tal violência, parecesse recalcado, reprimido em algum lugar do inconsciente coletivo. Hoje, em que muitos insistem em negar o Holocausto, mais do que nunca o documentário de Resnais permanece atual e emocionalmente potente.
Conhecimento e a memória mudam com o tempo – essa é uma das preocupações temáticas de Resnais, neste e outros trabalhos. Mudam também países e pessoas, e o Estado de Israel, criado por meio de votação na ONU logo após a 2ª guerra – voto influenciado, entre outros aspectos, pelo Holocausto – empreende hoje uma ação sistemática de aniquilamento da população palestina em Gaza.
O projeto de “Noite e Neblina” surgiu a partir de uma exposição no Instituto Pedagógico Nacional francês, em 1954. Olga Wormser e Henri Michel, os organizadores, convidaram o produtor Anatole Dauman, que aderiu à ideia do filme e chamou Alain Resnais para ser o diretor. Inicialmente, ele recusou: achava que sua falta de experiência direta nos campos de concentração tiraria qualquer índice de autenticidade. A saída foi integrar o poeta Jean Cayrol, sobrevivente do campo de Mauthausen, para escrever o texto. Cayrol, autor de Poèmes de la nuit et du brouillard, lançado em 1946, relutou a princípio – a ideia de revisitar essas experiências era dolorosa demais. Convenceu-o o amigo comum de ambos, Chris Marker.
A obsessão e destreza formal de Resnais certamente fazem com que o produto final tenha uma carga emocional única, seja em comparação a documentários convencionais, seja em relação a construções ficcionais. A narrativa do filme avança por meio de digressões, montadas com sutileza e precisão, acopladas a comentários dissonantes e quase irônicos, que captam a atenção da audiência, fazendo com que cenas chocantes sejam vistas com clareza. A confrontação entre passado e presente resulta que a pergunta final – Então, quem é o responsável? – pareça ser dirigida a qualquer espectador, no presente do lançamento do filme, como também em outras épocas. Resnais admitiu que a guerra na Argélia estava presente em seus pensamentos quando da produção em 1955, mas não seria a atual escalada hegemônica norte-americana do Presidente Trump também suscetível desse questionamento?
Henri Michel, um dos proponentes iniciais do projeto, terminou se distanciando do filme. Para ele, o ‘valor histórico’ de um filme de compilação se baseava na ‘autenticidade’ das imagens de arquivo e no rigor factual da narrativa, que deveria ser escrita por um historiador cuja competência e autoridade científica garantissem a ausência de quaisquer tendências ficcionais. O oposto do que imaginou Alain Resnais.
As sequências coloridas foram filmadas em 1955, Auschwitz e Maidanek, também campo de concentração, tiveram autorização e apoio do governo polonês. A narração, feita pelo ator Michel Bouquet, optou pela neutralidade, sem traços de emoção, de acordo com instruções do diretor. Cenas do passado, em preto e branco, foram editadas a partir de material de arquivo e fotografias coletadas em museus de campos de concentração. A versão alemã de “Noite e Neblina”, obviamente um aspecto sensível, foi traduzida do francês pelo grande poeta Paul Celan, judeu que esteve internado nos campos nazistas. A tradução de Celan acentuou a identidade judaica das vítimas e a responsabilidade alemã de forma mais explícita que o original, usando seu estilo poético, mais hermético e opaco, para ressoar com o horror.
Celan e Cayrol se conheceram quando o primeiro começou a traduzir o livro de poemas de Cayrol – embora possuíssem sensibilidades poéticas distintas, confluíram na percepção de que o fundamental seria transcender o aspecto histórico propriamente dito, e encontrar um modo de transmitir um ato indizível não apenas no sentido moral, mas também no ontológico, mais amplo.
A recepção de documentário de Resnais foi intensa: ganhou o prestigiado Prêmio Jean Vigo em 1956, mas enfrentou resistências, inclusive tentativas de censura. O veterano crítico Jonathan Rosenbaum não tem dúvidas: para ele, “Noite e Neblina”
é o melhor filme já feito sobre os campos de concentração… “Shoah” (1985), de Claude Lanzmann, deve tanto a este filme que jamais poderia ter sido concebido, muito menos realizado, sem o exemplo de Resnais. “A lista de Schindler”, por seu turno, é uma caricatura perto do filme de Resnais.


