
Mostra de Tiradentes 2026: A chuva não nos atrapalhará!
Confira o diário do Vertentes do Cinema que conta tudo o que aconteceu no segundo dia intenso e com chuva do evento mineiro
Por Francisco Carbone
Sabemos que um festival de cinema começou quando começamos a sofrer pelo que perdemos, e isso já aconteceu no primeiro dia regular do evento. Ao longo da próxima semana, esses momentos criarão volume quase insuportável, e é sempre péssimo fazer uma escolha. Porque não apenas queremos, como muitas vezes precisamos estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. As escolhas são necessárias, mas isso não significa que elas serão sempre as mais acertadas; apenas que você conseguiu vencer esse jogo de perder. É isso, quanto antes percebermos que em um festival de cinema se perde sempre, mais livre ficaremos para uma gradação menos sofrida das coisas.
O calendário de eventos, por si só, nos mantém em lugar de eterno alerta. São debates importantes que batem de frente, são filmes igualmente importantes cujas sessões se encavalam, e ainda temos que pedir a São Pedro para nos poupar das chuvas torrenciais que nos atrasam constantemente. E ainda tem nossas atividades tradicionais das quais não podemos fugir, ou alguém aguentaria não almoçar, tomar banho ou dormir para corresponder ao que se espera? No rolar dos acontecimentos, entender que um festival é um organismo vivo e que precisamos abrir mão das coisas é essencial para conseguir não sofrer de ansiedade.
A coletiva de imprensa de uma personalidade homenageada, que aconteceu aqui na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, é um desses casos que não se foge em uma cobertura de festival. Quando essa figura de cinema atende pelo nome de Karine Teles, essa situação beira o impossível; estamos falando de uma das mais interessantes atrizes da atualidade, e nem estou falando apenas dos aspectos de sua arte – que já eleva a obrigatoriedade. Karine é uma dessas figuras que não apenas dão prazer de ouvir pela qualidade da fala, como principalmente pela necessidade da mesma. Seu lugar de atriz e de pensadora de cinema se revela ainda mais recompensador quando ela se emociona em alguns dos momentos, revelando que a veracidade empregada por ela em seus trabalhos, revelam detalhes da pessoa, em uma sensibilidade recíproca com a atriz.
O Vertentes do Cinema participou da coletiva de imprensa e fez uma pergunta: “Karine, Francisco Carbone, do Vertentes do Cinema. É a gente, é, que roda circuito dos festivais, você vai em muitos festivais, a gente tá acostumado a ver homenagens, grandes homenagens a grandes artistas, com uma carreira longeva, né? Chega num período do, da vida e a pessoa é homenageada. E Tiradentes tem essa tradição, que eu acho incrível, de homenagear pessoas no auge, né? Tipo, no, no ápice da sua produção. Como é que foi pra você encarar esse convite, de cara, quando você foi avisada disso, e que tipo de reflexão isso mexe com alguém tão jovem como você?”.
Karine Teles estampa um sorriso e nos responde: “Eu fiquei muito feliz na hora, nem pensei muito, aceitei e fiquei emocionada, e, e depois é que eu parei pra pensar, falei: caramba, é… Eu não acredito em auge, assim, eu acho que isso não, não existe, porque o auge precisa ter uma queda, e eu espero que não tenha. Nós esperamos todos aqui. Eu espero não, eu espero que eu esteja no caminho. E eu também não, não enxergo a minha rota, né, de trabalho, como uma linha ascendente. Eu enxergo ela como uma estrada sinuosa, com curvas, com descidas, subidas, assim, um caminhar, que é o que mais me interessa. Assim, a parte que mais me interessa é o fazer o trabalho, muito mais do que assistir o trabalho pronto. Eu gosto assistir o trabalho pronto dos outros. O meu, não. Eu gosto de fazer, eu gosto de tá ali na lida do ensaio, do, do pensamento, né? Da, da filmagem. É isso que é o que eu amo e que eu quero continuar fazendo. Então, por isso, é, eu não tenho esse desejo de ascensão, meu desejo de permanência. O que eu sonho, o que eu idealizo, o que eu peço, é, quando eu peço coisas pro meu futuro, é que eu permaneça, que eu possa estar exercendo a profissão que eu escolhi, é, enquanto eu tiver vida e saúde, assim, né? É… Então, ser homenageada por Tiradentes, assim, é, me dá um carinho, me dá um alento, me dá uma esperança de que talvez eu consiga, porque não é mole não, gente, não tem isso. É, eu, eu tive vontade de desistir pouquíssimas vezes, porque eu acho que, é, eu tenho construído um caminho pra eu caminhar, né? Eu tenho feito, eu tenho trabalhado, eu tenho conseguido pagar minhas contas, mas vira e mexe dá um cansaço, assim, às vezes, é tipo, fala: caramba, bora lá começar tudo de novo, mais uma vez, né? Eu espero que essa homenagem seja um, um momento de quando você para na estrada pra ver um mirante, ali, que você admira uma paisagem, tal, você fica ali, respira, bebe uma água e segue”.
O segundo dia da 29a edição da Mostra de Cinema de Tiradentes foi ocupado por três longas (“Palco-Cama”, de Jura Capela; “Estopim“, de Tiago A. Neves, e “Uma Baleia Pode ser Dilacerada como uma Escola de Samba”, de Filipe M. Bragança e Marina Meliande) e nenhum longa. No meio do caminho, houve uma queda de luz – e as sessões, todas ordenadas em horários seguidos, ocasionaram um engarrafamento de horários. Para compensar, a chuva deu trégua à noite, e a praça exibiu na tranquilidade “Querido Mundo”, premiado longa de Miguel Falabella e Hsu Chien.
A chuva quer claramente protagonizar o evento, promovendo momentos de tensão nas sessões (onde a enxurrada rivaliza com o que os filmes contam), mas por enquanto, ainda no início dos trabalhos, a paciência com São Pedro ainda não se encerrou. Vamos entender que faz parte do processo, usando guarda-chuva e duas blusas em pleno janeiro. No fim do dia, a rivalidade mais sentida até agora nem é com a chuva, mas com a descoberta dos locais com o álbum de figurinhas do cinema brasileiro fornecido pela Petrobrás, patrocinadora master do evento. É um dos quadros mais bonitos até agora, ver todos invadindo a tenda para colar o álbum e trocar figurinhas. Imagem das mais bonitas do evento até agora. E simbora pro dia 3…




