Meu Tio da Câmera
Entre todos nós
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026
Bernard Lessa é um diretor de cinema experiente, que lançou filmes premiados e reconhecidos (como “O Deserto de Akin“), com circulação nos festivais e no circuito comercial. Estar na Mostra de Cinema de Tiradentes não é inédito para ele, mas talvez apresentar seu novo filme represente um caminho de ruptura que ele já tinha a intenção de promover para si. “Meu Tio da Câmera”, a priori, desenha um quadro de cansaço dentro do cinema brasileiro; quem ainda está em condições de promover retratos particulares acerca de seu universo, de acordo com seus familiares e afins? O tal termo ‘filme de churrasco’ (alcunha outorgada pela crítica Cecilia Barroso para títulos, geralmente documentais, que exploram a realidade do realizador, e que nem sempre interessa a quem está de fora dela) parece ainda mais desgastado pós-pandemia, quando uma profusão de filmes com essa natureza foi colocada no mundo.
É bom ter um afastamento de “Meu Tio da Câmera” antes de escrever sobre ele, porque seus predicados cristalizaram-se em outras cercanias, para longe do que é percebido de cara. Apesar de compreender que os cineastas precisam desmistificar a importância da auto-representação – eu mesmo já quis filmar minha mãe, a casa da minha infância, imagino a tentação de ressignificar tais eventos na nossa vida, e entender que esse caminho nem sempre é abrangente – Lessa consegue dar o nó necessário. Estamos diante de um filme que, na lógica interna, tem uma certa validação, e que diante do externo, compreende outras ideias de representação.
De maneira resumida, o pequeno Bernard cresceu ao lado do tio Paulo, que ao comprar uma câmera no início dos anos 1990, começa a registrar o próprio núcleo familiar ao longo dos anos – e das décadas seguintes. Essa é a camada que está na frente dos olhos, mas muita coisa vai se formando através da duração de “Meu Tio da Câmera”, características da classe média brasileira que só um olhar isento consegue alcançar. De acordo com o material montado, percebemos que Lessa tinha essa isenção ao olhar para figuras provenientes do afeto familiar e entender as fissuras que foram explicitadas nos últimos 35 anos, e que muitas delas nem tinham nome ao serem vividas em cada uma dessas curvas.
“Meu Tio da Câmera”, para além da necessidade inicial enxergada (ou não) no seu recorte estritamente pessoal, escapa desse olhar ao aproximar-se do que se tornou o brasileiro padrão médio, e o que estava na receita desse cidadão desde sempre. Com duas cisões em sua montagem, uma na metade da duração e outra enquanto caminha para o fim, o filme de Lessa deixa óbvio nas sutilezas que estavam nas entrelinhas de cada filmagem, tais como a forma que o personagem se dirige à esposa, os conselhos que ele dá aos filhos, a maneira como sua postura é aberta ao espectador. O desenho foi feito ao longo dos anos, e o que é extraído de um comentário social ao longo das décadas, que transformou-se no suco de Brasil que as últimas eleições mostraram; um suco bem amargo, diga-se.
Em trabalho de montagem bem sucedido, acompanhamos em montagem não-linear o crescimento de Vitor e Vinicius, o nascimento de Henrique, e a maneira como Paulo regeu sua família. O máximo em qualidade de vida, o possível em amor paterno, e as pitadas de machismo, misoginia e tantas outras problematizações possíveis que não são vistas a olho nu. O acúmulo de imagens nos coloca em contato com o que importa: “Meu Tio da Câmera” não deixa de rasgar a tela com o tanto de agudo pode estar na calmaria de um certo período do Brasil, mas cuja tendência é explodir. Passando ao largo do bem querer familiar (e mostrando também o quanto as cisões tornaram evidentes o mar de perdas), tio Paulo é também todos os nossos tios, primos, pais e irmãos que ‘perdemos pelo caminho’. Ou seja, um ‘filme de churrasco’ servido em todas as casas.


