Kokuho – O Preço da Perfeição

Sublime estético

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Kokuho – O Preço da Perfeição

Kokuho – O Preço da Perfeição”, realizado em 2025 por Sang-il Lee, é um exercício de sublimação estética. E também um dramalhão épico – são quase três horas de duração, cobrindo 50 anos da vida do personagem principal, o ator Kikuo Tachibana, estrela do teatro Kabuki. É uma história ficcional, mas repleta de cenas sublimes do repertório Kabuki, agregadas com bastidores das coxias e altos e baixos de Kikuo. Sublime, de acordo com a IA, refere-se a algo de beleza, nobreza ou elevação extrema, que transcende o comum e provoca admiração ou êxtase. O filósofo Kant elaborou em páginas famosas o conceito, ainda segundo a IA:

o sublime é um sentimento de prazer negativo, ou admiração, diante de algo na natureza que é ilimitado, caótico ou imensamente poderoso (como tempestades, montanhas ou o oceano). Ao contrário do belo, que agrada à imaginação, o sublime sobrecarrega os sentidos, revelando a nossa superioridade racional sobre a natureza física.

Kant, que não tinha nada a ver com o Japão, parece ter-se inspirado no Kabuki quando diz que o sublime não está na coisa em si, mas no espírito humano (mente/razão) que reage a ela. Ao contemplar os gestos, os movimentos, o cenário, e sobretudo as cores das encenações de “Kokuho – O Preço da Perfeição”, é algo próximo à descrição kantiana que percebemos, ou sentimos. Claro, a excelência da execução é fundamental para esse sentimento, dos movimentos teatrais à qualidade da captação fotográfica. O resultado é uma experiência espectatorial singular e estimulante para os sentidos, em última análise para o espírito humano.

Adaptado do romance homônimo de Shuichi Yoshida, a história, ou o dramalhão, começa no ano de 1964, em Nagasaki, quando o chefão Yakuza Tachibana celebra o ano novo com sua clientela e recebe a visita do famoso ator Kabuki de Osaka, Hanjiro Hanai (Ken Watanabe, ótimo, como sempre). No pequeno palco da festa o jovem Kikuo, filho de Tachibana, performa um sketch Kabuki e impressiona o veterano ator, que pede logo um encontro com o rapaz. Antes de receber a resposta, um grupo rival lança um ataque violento ao local e Kikuo testemunha o assassinato do pai. Atordoado, esboça uma reação, mas Hanjiro impede e salva sua vida.

A sequência – marcante para a vida ulterior do jovem, obviamente – é filmada com uma estética que lembra os filmes japoneses dos anos 60/70, câmara ligeiramente lenta, objetivas focando nas expressões dos personagens, e neve artificial temperando os combates. Um olhar penetrante do chefão dirigido ao filho no momento de sua morte, depois de se bater contra uma corja de inimigos, é visceral – como se o olhar penetrasse no âmago da subjetividade de Kikuo e, por tabela, provocando a reação do espírito humano (mente/razão). O prólogo funciona como homenagem a clássicos como “Lady Snowblood – Vingança na Neve”, de 1973.

O primeiro salto temporal da narrativa, um ano depois, vem a seguir. Hanjiro aceita Kikuo, de quinze anos, como aprendiz, apesar de sua esposa ser contra, já que o jovem era herdeiro Yakuza. Kabuki e Yakuza, dois signos da vida japonesa, são incongruentes, insiste ela. Para confirmar suas suspeitas, Kikuo ostenta em suas costas, a exemplo de seu pai, as famosas (e temíveis) tatuagens que distinguem a estirpe dos Yakuzas. Como um corpo que se pretende puro e imaculado, capaz de expressar a delicadeza dos afetos e emoções do Kabuki, pode carregar um estigma como esse?

Nessa altura, “Kokuho – O Preço da Perfeição” afigura-se a algo como leituras do corpo no Japão. Kikuo inicia seu treinamento corporal ao lado de Hanya Shunsuke (Keitatsu Koshiyama), filho de Hanjiro e herdeiro da casa de Kabuki Tanba-ya. Herdeiro de um mestre Kabuki é uma coisa muito séria no Japão, desnecessário ressaltar. Entre os dois garotos estabelece-se um sutil clima de competição, inevitável por certo, mas atenuado pela cumplicidade e camaradagem que vai se criando com os anos de aprendizado. As primeiras apresentações da dupla, em espaços pequenos e limitados, atraem a atenção do líder da corporação Mitsutomo (nome fictício), que os convida para estrear em grande estilo no teatro Kabuki de Osaka.

Ambos, Kikuo e Shunsuke, são onnagatas, homens que representam papéis de mulheres. A visualidade exuberante do filme atinge seu ápice no contraste da subjetividade entre os dois e na tensão que se instala durante as representações. Kikuo se diferencia pela pressão interna em virtude de sua origem, que o impulsiona à perfeição – mas que pode, também, cobrar um preço, como diz a tradução brasileira do título. “Kokuho” significa “legenda viva”, como são designados os grandes atores do Kabuki – aspiração de Kikuo e Shunsuke.

No mais, são idas e vindas dramatizadas na vida dos protagonistas – característica básica desse sublime que é o teatro Kabuki, que o filme resgata e atualiza para o século 21.

5 Nota do Crítico 5 1

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