Fernando Coni Campos: Cada Um Vive Como Sonha
Liberto da jaula
Por Francisco Carbone
Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026
O leitor já ouviu falar em Fernando Coni Campos? Diretor, roteirista e escritor, o autor de “Ladrões de Cinema” dirigiu 13 curtas e 6 longas (deixando ainda dois filmes nunca lançados e/ou inacabados), mas não está na maioria das discussões acerca do cinema brasileiro. Precocemente falecido aos 55 anos, em 1988, Campos foi uma referência para outros realizadores, como Julio Bressane, Antônio Pitanga e Jean-Claude Bernardet; os três trabalharam com o mesmo. “Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha”, além de um belo exemplar de obra cinematográfica, ainda realiza a façanha de aproximar-se de um cineasta cuja obrigação era estar em discussão e ressignificação de uma obra singular.
Os diretores Luis Abramo e Pedro Rossi têm em mãos uma narrativa irresistível, que se debruça sobre um autor cuja vanguarda vem sendo amplificada hoje. Premiado, Campos andou à margem por trafegar dentro das cercanias do cinema marginal ainda que contemporâneo ao Cinema Novo. O resultado foi essa defesa exata de seus colegas de movimento em tempos onde a ‘intelligentsia’ estava mais disposta a outros olhares. O cinema marginal já foi ressignificado, mas alguns autores ainda precisam encontrar a porta de entrada para que seus nomes estejam em merecidos emblemas. “Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha” é um tratado sobre um cineasta que realizou um cinema que, mesmo sem buscar a hegemonia, conseguiu chamar a atenção de quem estava ao seu redor.
O filme investiga Campos a partir de falas do próprio, de sua obra (incluindo o filme inédito “Um Homem e sua Jaula”) e de um grupo de entrevistados que vão desde os amigos e entusiastas, até sua família. Não se transforma em uma miscelânea, mas ainda que chegasse a esse lugar, estaria na conexão do próprio protagonista, que criou uma obra ímpar – o filme, com suas marcas registradas, tenta ouvir os debates que o cineasta abriu, tenta reverberar seus desejos enquanto artista. E assim, um homem pouco lembrado nos livros de História não apenas mostra seu rosto e imagem, mas igualmente deixa falar figuras que, como ele, necessitam de ressignificação para além do respeito merecido. O caso mais emblemático é o de Afrânio Vital, que o curta “Dois Nilos” trouxe de volta, e aqui mostra não apenas o seu olhar, mas sua voz.
É dessa maneira que os cânones são revistos, através do reconhecimento não somente da relevância de sua filmografia (no caso do cinema), mas na impressão indelével que suas colocações imprimem tanto no que sua arte revela, quanto em quem as ouve. Talvez a forma mais objetiva de tratar Campos é o que faz essa homenagem, ao se imbuir do espírito dele para exibir suas ambições narrativas. Abramo e Rossi transformam suas indagações em imagem, e na montagem que captura também essa essência e rememora as aspirações do cineasta vencedor em Brasília com “O Mágico e o Delegado” para costurar os debates atuais. A maneira como Pitanga passeia com sua narração e presença, no passado e no presente, revela um tanto da verdade de Campos, e a conversa entre ele e o colega Juliano Gomes está entre as melhores passagens do filme.
O mais ambicioso, no entanto, é reconhecer Campos como alguém que não merece ser esquecido, e entregá-lo para a apreciação, fazendo justiça a ele com o próprio. Ou seja, o grande legado de Fernando Coni Campos é ter inspirado tantos, inclusive com a criação de “Fernando Coni Campos: Cada um Vive como Sonha”, em situação que remete a um Ouroboros, ou a cobra comendo o próprio rabo. É um elemento que representa sua própria significância, quando o diretor regurgita suas ideias à obra de seus biógrafos. E como a melhor obra possível, Abramo e Rossi nos instiga a conhecer mais de sua história e de sua obra, através de ideias que não apenas não envelheceram, como surgem como exemplo de modernidade.




