Mostra Online Premiados Super Curta 2025

Estopim

Álbum de família em duas marchas 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Estopim

A essa altura, podemos dizer que Tiago A. Neves é uma presença habitual da Mostra de Cinema de Tiradentes. Nos últimos anos, ele apareceu na competição com dois filmes, “Cervejas no Escuro” e “Maçãs no Escuro“, mostrando uma clara intenção de expandir suas possibilidades como autor. Esse ano, ele nos entrega “Estopim”, e dessa vez a visão de Neves é posta à prova pelo próprio. Mais uma vez, trata-se de uma provocação narrativa, mas aqui o desafio é completo, porque sua implicação estética está também em primeiro plano de discussão. O projeto é mais ambicioso, e por isso a tacada é menos sossegada; como resultado, acompanhamos que não pode restringir-se a uma evolução, apenas. Em tão pouco tempo, o cineasta parece buscar um amadurecimento.

“Estopim” parte de um conceito: sete episódios em um mesmo núcleo familiar. O filme começa em uma catarse, e essa situação se espraia nessa mesma passagem aos limites do suportável. A ideia não somente é boa (e não basta uma boa ideia para obter sucesso de resultado), como executada com muita propriedade e um esmero que nem precisava estar tão exposto assim. Neves é um cineasta cuja economia é evidente, para evidenciar assim suas mais sutis interferências narrativas; aqui, no entanto, ele que não está encerrado como roteirista. Seus longas anteriores demonstravam futuro óbvio, mas aqui esse futuro se estabelece como presente.

Estamos observando duas irmãs às voltas com um imbróglio familiar que, pro melhor aproveitamento do jogo narrativo, não é apressadamente esclarecido, ou ainda nem é servido explicitamente. As rasuras do roteiro soam propositais dentro de um campo onde a cacofonia é substituída pela sutileza de apresentação. Em cena, essas irmãs estão unidas na apresentação e apartadas no desenvolvimento, onde eventualmente se reencontram para retornar ao cume central. O propósito aqui não é o de estudar tais personagens, mas de suscitar suas viabilidades diante de um painel estético-narrativo, sem atrapalhar a descoberta coletiva do que é narrado.

Em cada um desses episódios, acompanhamos tais catarses serem defendidas pela mise-en-scène de maneira autônoma, descortinando a agudeza do plano-sequência. Para essa abertura, a ideia ultrapassa o acerto, assim como no estalo da fuga mais adiante. “Estopim” é um exercício de imaginação e de ampliação de ideias de seu autor, que não pode ser acusado de avançar sobre terreno perigoso, no sentido de dar um passo maior que as pernas. Neves está claramente testando, trabalho após trabalho, o tamanho de suas capacidades, no que podemos definir como uma atitude inteligente e sensata. Observá-lo em seu processo evolutivo é um daqueles momentos raros e felizes para o cinéfilo (e a escrita crítica), porque é o que esperamos de um personagem – a evolução, e não o contrário.

Aos poucos,“Estopim” mostra outros predicados, como a estrutura narrativa que o filme aplica particularmente, não ocorrer em clima de escalada, mas de algum retrocesso temporal, até esses implicações se misturarem em absoluto no último ato, mostrando que Neves é ainda mais corajoso do que aparenta. O filme aponta uma questão colocada em sua apresentação, e aos poucos descortina o percurso para essa chegada, que está na abertura. É uma ideia não-original, a priori, mas a maneira como o autor apresenta esses códigos, vai acrescentando as camadas necessárias para que o painel se monte e defina suas intencionalidades. A riqueza dessa artesania se sobrepõe ao que é menos orgânico em cena, e que até resvala em algum artificialismo.

Neves busca uma conversa com o melodrama aqui, ainda que suas bases não estejam somente fincadas nessa investida. Só que essa escolha delimitaria uma entrega de outra ordem de seus atores, que estão bem, mas não conseguem criar um painel verídico o tempo todo, muito também porque as informações dadas em diálogos são, muitas vezes, expositivas demais; em outros momentos, não. O que escapa desse desequilíbrio é a falta das entonações acertadas para que o texto soe menos engessado. Mas “Estopim”, enquanto exercício de busca de seu autor, enquanto crescimento óbvio de suas potencialidades, aponta um caminho onde Neves nunca deixa de apresentar qualidades rejuvenescidas.

3 Nota do Crítico 5 1

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