Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Entrevista com Fantasmas

Espectros de experimentação coletiva

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Entrevista com Fantasmas

Ultimamente, tenho tido algumas discussões com colegas acerca de autoralidade. Até que ponto um autor específico, ao alcançar tamanho grau de relevância, passa a ter sua obra referendada por si só? Um dos alvos do debate era Lincoln Péricles, ou LK, como costuma assinar vez por outra; em “Entrevista com Fantasmas”, seu mais novo filme, essa é a assinatura. O registro também regula com alguns filmes, em um face mais sarcástica e ácida, menos realista, mas a personalidade segue intacta; estamos diante de um cineasta que tem sempre algo a dizer, mesmo quando sua voz parece menos confortável. Talvez até por isso mesmo o filme grite por uma urgência diferente do que sua fornada é alcançada, porque Péricles sai de seu campo habitual para escavar outras diretrizes.

Geralmente atrelado e com pulmão cheio para denunciar sua realidade, muito bem representada pela quebrada de onde veio, não é o simples fato de que Péricles não está em sua zona geográfica, mas como ele abre diálogo com um avanço estético aqui. Jamais diria que falta maturidade à sua obra, mas quando ele decide dialogar com outros espaços, com outros gêneros, e descobrir até com um certo carinho, esse lugar já passeado por outros autores, sua filmografia infla positivamente. É como observar um espaço sendo alcançado por um exímio alpinista, em uma nova montanha; a subida do diretor de “Mutirão – O Filme” não é qualitativa, mas dona de um aparato para esse ímpeto de investigação que ainda não tinha sido encarado de frente por ele.

Aqui temos uma farsa bem humorada, que se transforma em ‘mockumentary’, que se transforma em filme de arquivo, que se transforma em homenagem ao cinema, sem nunca perder o timing, ou a passagem de bastão de uma coisa para outra. Na verdade, provavelmente, ele não deixa de ser nenhuma dessas coisas – apenas evolui para a próxima fase, com uma nova roupagem, com um novo cabide de opções, sempre somando. “Entrevista com Fantasmas” não se trata apenas do encontro que é presenciado em cena, mas também do diálogo que nasce entre os gêneros, entre os tempos; como se fôssemos testemunhas oculares de uma nova forma de Cinema que nasce, sem deixar sua gênese de lado. Uma escrita menos engessada, mais livre e mais acurada em suas intenções.

A partir do seu encontro com uma atriz de mais de 100 anos de idade, os relatos dessa “jovem”, e as extensões que o filme vai retrabalhando em seu jogo de armar infinito, “Entrevista com Fantasmas” não se sujeita ao conforto. Na sua duração de curta metragem, observamos um mutante em constante evolução, reprogramando não apenas sua própria forma, mas essencialmente nossa relação com a obra, que também se coloca de maneira investigativa. O que pode sair da próxima curva, é uma pergunta constante que o filme nos faz; não há respostas possíveis quando seu autor resolve quebrar os possíveis caminhos com dobras inquietas. Sem um olhar unificado dentro do que está propondo, o filme nos carrega por essa jornada pelo cinema e pelo tempo para saciar tudo o que encontrar.

Ao contrário do que pode ser pensado a respeito de uma obra tão vasta, “Entrevista com Fantasmas” contribui para a filmografia de Péricles com insuspeita novidade. Seus títulos já são suficientemente sofisticados, sua capacidade é redobrada a cada novo título, o que ainda lhe falta alcançar? A resposta: tudo. A voz de seu autor fora da tela, cria um profissional que é necessário acompanhar também pelo lado de dentro. Aqui, como no anterior “Filme sem Querer”, ele expande sua voz para formas de expressão que podem se chocar com o tempo; não acontece por conta do talento que ele mostra não apenas para a reconfiguração da imagem da periferia nas telas, mas igualmente da sétima arte.

A próxima parada de Lincoln Péricles: provavelmente nem o mesmo ainda sabe. O que é certo é a qualidade do destino, e as curvas acentuadas e vertiginosas para concluir cada viagem.

5 Nota do Crítico 5 1

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