Cinco Dias no Hospital Memorial
Furacão Katrina, ainda!
Por João Lanari Bo
“Cinco Dias no Hospital Memorial” é uma série de oito episódios da Apple TV, lançada em 2022, que tem um propósito claramente definido desde o início: recriar fielmente as condições do hospital Memorial em Nova Orleans, nos dias que se seguiram ao furacão Katrina, que atingiu a cidade em fins de agosto de 2005 – um dos mais violentos da história, causou mais de 1.800 mortes e dezenas de bilhões de dólares de prejuízos. Negligência e atrasos na prestação de socorro chocaram a opinião pública norte-americana, sobretudo após a inundação que assolou a cidade, quando diques de contenção romperam no dia seguinte à passagem do furacão. Dos cinco dias do título, o primeiro concentra-se no furacão e os quatro restantes narram os dramáticos esforços de sobrevivência de pacientes e equipe do hospital, sem luz e água, suprimentos destruídos e – o que é pior – sem perspectiva viável de evacuação. A narrativa é intercalada com imagens de arquivo de noticiários tão impactantes quanto o drama roteirizado.
A recente realização da COP30 em Belém – 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas – trouxe à baila os elevados riscos para o meio ambiente decorrentes do aumento da temperatura global dos oceanos, já que de 90% do aquecimento da Terra ocorre nos mares, ressaltando a atualidade da série. Furacões e pressão em populações litorâneas só tendem a aumentar, portanto. “Cinco Dias no Hospital Memorial”, inspirado no livro homônimo da médica Sheri Fink, revela-se um retrato valioso de como situações-limite desse porte são enfrentadas, com improvisações e inevitáveis danos colaterais. A série começa com a descoberta, logo depois da evacuação, de 45 corpos que teriam sido vítimas de decisões médicas de abreviar o sofrimento através de aplicações de morfina, em doses letais, visando o “conforto” dessas pessoas.
O dilema ético implícito nessa decisão é um dos principais tópicos do programa – mas não o único. O mérito da adaptação, que se pretende fidedigna e despida de sensacionalismos, foi exatamente esse: transmitir os eventos de forma o mais completa e correta possíveis, enfatizando médicos e enfermeiras que se destacaram de forma “equilibrada, cheia de nuances e complexa”, como ressaltou a autora do livro. Escolhas difíceis feitas sob pressões indescritíveis, falhas gritantes dos sistemas de prevenção, tudo isso levando a momentos de intensidade emocional – seria fácil produzir um resultado com os gatilhos batidos do gênero, as conhecidas (e inúmeras) “séries sobre hospitais”, agradando um público mais afoito e garantindo picos de audiência. Não foi o caso de “Cinco Dias no Hospital Memorial”.
Como sugeriu crítica do The Guardian, “este extraordinário drama pós-Katrina é absolutamente brutal e absolutamente fascinante”. Ambientada nos corredores, escadas e quartos do hospital, cada vez mais infectos e insalubres, a série tem os cinco primeiros episódios narrados cronologicamente, dia e noite, privilegiando personagens em particular, como a Dra. Anna Pou – excelente atuação de Vera Farmiga – além de Susan Mulderick (Cherry Jones), diretora especialmente designada do “incidente”, Diane Robichaux, enfermeira, Dr. Horace Baltz (Robert Pine), Dr. Bryant King (Cornelius Smith Jr.) e muitos outros, todos discretamente brilhantes. Obter um padrão homogêneo de atuação em meio a situações terríveis como as experimentadas pelo hospital Memorial – situações reais, com nome e sobrenome dos envolvidos – é sem dúvida um feito. Mesmo que os personagens venham a se tornar emblemáticos, dado o desespero crescente dos acontecimentos, a série manteve uma objetividade exemplar. Direção e edição também concorrem para esse apuramento.
A questão ética foi o tema dos três episódios finais, ocorridos posteriormente em relação aos cinco dias iniciais, e centrados em personagens, igualmente reais: o Procurador-Geral Adjunto Butch Schaeffer (Michael Gaston) e a Investigadora Virginia Ryder (Molly Hager). Entrevistando numerosas testemunhas, a dupla, nomeada pelo Procurador-Geral Fonti, do estado da Louisiana, construiu um caso onde a responsabilidade pela decisão de aplicar morfina nos pacientes levaria à acusação de homicídio. A Dra. Pou, principal acusada, chegou a ser presa – concedendo inclusive entrevista no influente programa de televisão “60 minutes” para se defender. Ela não participou da produção da série, e fez duras críticas à autora do livro, Sheri Fink.
Uma delas é sobre o farmacêutico que acusou a Dra. Pou de administrar doses letais, Dr. Nakamura, um dos coadjuvantes da série: é um personagem ficcional, o real farmacêutico forneceu a morfina, mas não foi um acusador. O Memorial, que se alinha com as posições da médica acusada, criou um site para contestar esta e outras afirmações do livro (e da série). A entrevista para o “60 minutes” consta do site.
A despeito das pouquíssimas licenças dramáticas, “Cinco Dias no Hospital Memorial” é um marco no streaming.


