Carcereiras

Diário do cárcere

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Carcereiras

Alguns títulos não deixam margem para especulação: sobre o que seria um filme cujo título é “Carcereiras” a não ser sobre profissionais da área? O que o espectador não espera é o relevo ao qual se dedica Julia Hannud, em características sempre na condução de surpreender. Quando temos convicção que temos apreendido quais são os interesses da produção, quais são suas molas narrativas, o filme apresenta nova proporção, e uma abertura igualmente não apresentada para descobertas e possibilidades. O quadro final é de que nem tudo foi contemplado em cena, deixando o campo aberto para que as lacunas sejam preenchidas em outra conexão que não seu roteiro.

Primeiro, temos duas protagonistas, e não um punhado delas. Ao centrar seu olhar em apenas duas condutoras (ao contrário do que a maioria faria), “Carcereiras” permite que nosso olhar seja mais sobre as ações que as condições. Mas Hannud não está disposta a estipular parâmetros, ou ao menos está satisfeita em desfazer nossas expectativas. Qualquer que seja a justificativa, ela serve ao propósito de tornar sua obra mais impactante. É a rotina, que nem sempre tem seu encanto mediante o universo com o qual elas lidam, mas que reconfigura a máxima de que toda vida tem um interesse genuíno, se você souber como e por onde olhar.

Ana Paula e Mariana têm contextos distintos. A primeira é veterana no que faz, e lida com o cotidiano de maneira esquemática que Hannud consegue extrair um delicado equilíbrio de beleza, ajudando na criação do sobrinho e na função da mãe em sua atividade profissional. A segunda é uma jovem passando pelo processo de transferência de posto e local, com uma família que compreende sua profissão porque estão na mesma fonte. Enquanto Ana Paula é filmada na praticidade do que realiza, Mariana é uma figura cuja performance compreende também o vazio das ações. E é dessa segunda protagonista que Hannud descobre uma atriz das mais comprometidas com o que está sendo proposto, isso sem qualquer menção a algo ser compreendido como falso no que é realizado.

Dessa maneira, “Carcereiras” torna-se um painel que não se restringe também à sua temática, mas passeia pelo cinema que Hannud deseja fazer, dando amplitude ao que conta na prática. É como se fôssemos testemunhas de desdobramentos distintos, ação e reação, em personagens diferentes; não é como se Ana Paula não refletisse sobre o estado das coisas, ou como se Mariana não se movesse com naturalidade. Mas o rosto da segunda é naturalmente expressivo, e a câmera se conecta a ele de imediato, levando a narrativa para uma introspecção natural, a um estado de consciência da mesma ordem. Sem precisar coordenar, Hannud obtém dois códigos cinematográficos em paralelo, sem conflitar o drama exposto.

A montagem a cargo de Affonso Uchoa (de “Arábia“) condensa todos os movimentos que abrem o projeto, gradativamente, com organicidade. Estamos diante de duas mulheres que trabalham no sistema prisional e só elas importam; as encarceradas não são vistas, seu redor não é visto. Em momento seguinte, somos apresentados às respectivas famílias, e o filme respira do trabalho, sem deixar de notar o quão refém elas são de suas funções, que extrapolam o ambiente em si. Em novas e posteriores cenas, algumas outras mulheres começam a ter voz ativa em cena para não apenas flagrar suas histórias, como também serem vistas, habitantes de um universo coletivo e co-dependente. “Carcereiras”, então, passa a das mais belas ressignificações, transformando cada personagem em senhora de suas decisões, ou seja, carcereiras de si mesmas.

Com isso, Ana Paula e Mariana passam apenas a vetores do que mostram e do que performam, e dando espaço para que cada uma dessas existências extrapolem do ecrã. Seja a criança abandonada por um pai, seja uma mulher abandonada em uma cama pelo sistema, o cárcere muda, mas estamos lidando com privações em camadas. Os rasgos para o humor, que podem ou não vir de um roteiro prévio, assim como a emoção da cena final, conduzem a narrativa para, enfim, permitir que o filme esteja liberto das grades do formato. Uma experiência de observação fascinante e imersiva.

4 Nota do Crítico 5 1

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