Bowie: O Ato Final

Perdido no espaço 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Bowie: O Ato Final

Um dos filmes de abertura do festival É Tudo Verdade edição 2026 conversa com um dos mais respeitados e celebrados astros da música na História. Não é todo dia que temos a oportunidade de passar 90 minutos na companhia da arte de David Bowie… ops… precisamos lembrar de algo: há 4 anos atrás, estreava no cinemas um título – “Moonage Daydream”, que viria a ser uma obra definitiva sobre o maior camaleão do rock. Bom, “Moonage Daydream” continua sendo; vendido, por batismo e sinopse, como um encontro com a fase final do autor de sucessos como ‘Let’s Dance’ e ‘Life on Mars’, “Bowie: O Ato Final” é, no mínimo, absolutamente desnecessário. Mas sim, ainda estamos diante de David Bowie, sua obra, seu talento, sua magnitude.

Jonathan Stiasny se defende exatamente por credenciais que não são suas. Bowie é um dos mais superlativos músicos que surgiram nos últimos 60 anos, e enquanto sua presença, arte e expressão estiver em tela, não teremos nada para colocarmos empecilho. O problema é que, cinematograficamente, ao deixarmos o que Bowie já carrega gratuitamente para o material audiovisual, pouco sobra de predicados para apreciar em “Bowie: O Ato Final”. Documentários musicais são lançados a granel no mercado todos os meses, e essa não é uma preferência do nosso cinema; esse filme é um exemplo de que um rastilho de pólvora foi aceso e não conseguimos mais controlar. Não conseguimos e, aparentemente, não queremos.

No final da sessão do É Tudo Verdade 2026, a lotada sala de cinema irrompeu em aplausos cheios de empolgação para a obra, o que nos leva a outra questão: esses títulos, em sua imensa maioria, são capitaneados por fãs e para fãs, que muitas vezes esquecem o valor de uma obra. No caso de “Bowie: O Ato Final”, a massa de efervescência basta para o filme se mostrar irrelevante, ao menos aos seus produtores; tirando tal questão, pouco sobra entre o que é realizado. A começar pela sensação de engano que somos confrontados; afinal, onde está o tal ato final do título? Ah sim, entendi que, em tese o que serviu como chamariz de produção, está concentrado em cerca de 15 minutos finais da obra.

Sobre então o que é um filme entitulado “Bowie: O Ato Final”? Pode parecer piada, mas o filme é sobre todos os atos de David Bowie, ou seja, sua carreira inteira. Tentando não soar convencional, a obra avança e retrocede no tempo sem uma lógica apresentável; soa como uma vontade vã de parecer conectado com seu biografado, em suas conquistas e reconstruções bem sucedidas. Ao contrário de Bowie, no entanto, estamos diante de um filme que precisa provar seus valores e para isso utiliza essa montagem que evoca algum arrojo, mas essa impressão não dura sequer 15 minutos. A natureza de Stiasny não provoca qualquer certeza que prove o erro dessa afirmação, ao entender que os fãs do artista farão qualquer coisa para mantê-lo em evidência, ele consegue valorizar Bowie – com as armas do próprio.

Uma coleção de entrevistas com músicos que o acompanharam, profissionais que trabalharam ao seu lado e amigos de toda a vida não conseguem mostrar outra coisa que não as respostas esperadas para perguntas possivelmente sem qualquer inspiração. Ao contrário de Brett Morgan, diretor de “Moonage Daydream” e esteta que se arvora por tentar capturar a essência de Bowie, Stiasny deseja apenas o básico do gênero: documentar tais eventos. Para um artista do calibre de David Bowie, isso transparece no mínimo como desleixado, até chegar no oportunismo de explorar um artista sem sequer tentar acessar sua personalidade; justamente um homem que era rico em tal aspecto. O resultado é um filme como outro qualquer.

Mas os tais 15 minutos finais guardavam um plus de mau gosto. Ao decidir falar sobre o tal ‘ato final’ do título, Stiasny não procura traduzir as características de ‘Blackstar’, o derradeiro álbum de Bowie. Seu interesse maior é investigar a saúde já comprometida do homem por trás de Ziggy Stardust, com a explanação de suas condições físicas, sua aparência descrita pelos entrevistados, desnudando um cenário que o próprio filme mostra, Bowie não gostaria de dividir. Ao trair a índole de seu homenageado, “Bowie: O Ato Final” nos deixa ao lado da voz e de toda a qualidade inabalável de seu protagonista, para um olhar insidioso através do que não estávamos habilitados a saber.

2 Nota do Crítico 5 1

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