Mostra Online Premiados Super Curta 2025

Anistia 79

Dias de luta, dias de glória 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026

Anistia 79

Quem acompanha a Mostra de Cinema de Tiradentes (e eu faço isso há 10 anos), sabe o caminho das pedras do que é exibido por aqui: propostas singulares e radicais de cinema, arrojo estético e narrativas disruptivas para montar um outro painel de cinema brasileiro, que muitas vezes não é representado pelo circuito de maneira evidente. De vez em quando, no entanto, o festival precisa encontrar saídas mais evidentes para as vozes que pretende amplificar. “Anistia 79”, para além do que pretende mostrar enquanto obra cinematográfica, surpreende inclusive nessa área, com uma exposição rara dentro do contexto documental. Ao pensar no filme pelos últimos dias, me pergunto se não estamos diante de uma obra crescente não apenas na importância do que revela, mas até mesmo de suas molas de realização.

Através de um achado de sua realizadora, Anita Leandro, que encontrou uma gravação de 90 minutos de uma reunião em prol da anistia dos presos políticos da ditadura, na Roma de 1979, um filme impossível passa a se desenhar na nossa frente. “Anistia 79” vai muito além de um registro histórico, porque Leandro não apenas encontrou tal filme, nem apenas digitalizou tal filme, nem apenas montou tal filme, mas ela concebe verniz cinematográfico a um material de arquivo que sim, é impressionante, mas que a diretora avança na discussão cinematográfica de muitas formas. Ao olhar para o resultado final, é impossível não ser afetado pelas imagens nos dias seguintes à sessão, mas o que é apresentado durante quase 105 minutos não é apenas um amontoado de imagens conseguidas há quase 50 anos atrás.

Leandro revisita o material original e emprega personalidade nas minúcias. Ela não apenas chama uma horda de sobreviventes àqueles dias e àquele período para reconfigurar tais planos a partir dos olhos afetivos, para igualmente reconectar de luz às figuras apagadas pelo tempo. “Anistia 79” é um monumento de resistência, mas também uma mensagem clara para o futuro, em termos de mensagem. Mas o filme nunca se acomoda em ser apenas mensagem, documento ou História; esse é um registro que merece e precisava de revisão, o que a cineasta emprega ali com a destreza de quem não apenas conhece o material, como também entende tais vestígios perdidos em um tempo de dor. Se não deixa de doer e revoltar, pelo menos consegue tornar a experiência amplamente enriquecedora.

Os planos contrapostos das imagens do passado com os espectadores do presente (e que também estavam inseridos naquele passado) são um recurso que a cineasta transforma em potência renovada. Porque não se tratam apenas de tipos perdidos entre dois tempos, mas de reflexão emocionais e políticas a respeito de um passado que não cansa de bater à nossa porta, e que precisa encontrar meios de escoamento para a contemporaneidade. Além disso, temos os áudios enfim resgatados dos diálogos do exterior entre essas figuras históricas e, hoje, até mesmo ressuscitadas pelos planos, que realçam não apenas os valores históricos ali mostrados, mas essencialmente a humanidade de homens e mulheres que eram mais do que lutadores.

A imagem de Denise Crispim que abre e encerra o filme, com sua filha Eduarda e que funciona como nossa conexão sensível à todo o projeto, é forte demais para não assombrar quem assiste “Anistia 79”. Estamos falando essencialmente de duas personagens ainda vivas no hoje, mas que estão em categorias diferenciadas de sobrevivência. Como dito no debate acerca do filme, estamos em frente a faces distintas: a dor estabilizada em rosto de mulher vivida, a esperança eternizada em rosto de criança. A forma naturalizada com que Denise vê a si mesma, e à sua filha, o relato de uma figura que sobreviveu à todas as tragédias possíveis, mas que nunca deixou de acreditar em outro tempo, não é abafado por suas ideais sumamente humanas, apenas da vontade de reabraçar a filha em sua inocência.

A reunião de rivais políticos em encontro inédito durante a conferência é um outro imenso momento de “Anistia 79”, onde podemos enfim conferir a união pelo bem comum: a liberdade deve sempre ser maior que tudo. Os comentários acerca dessa passagem, e a passagem em si, não ocupam grande parte do filme de maneira vã. Parte desse encontro as ideias primordiais para o futuro de qualquer tempo, e em como o respeito e a admiração deveriam estar acima de qualquer embate. É a chamada empatia, cada vez menos aplicada na prática, sendo vista ao vivo. Isso parece pouco, mas é um momento de cinema que merece todos os debates e todas as loas.

4 Nota do Crítico 5 1

Deixe uma resposta