Alabama: Presos do Sistema
O problema do Alabama
Por João Lanari Bo
Festival de Sundance 2025; Festival do Rio 2025
“Alabama: Presos do Sistema” é um documentário dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, finalizado em 2025 depois de seis anos de pesquisa e levantamento de material, sobretudo imagens de celular feitas pelos detentos. Focado em uma das prisões do estado do Alabama, no sul dos Estados Unidos – Easterling – o filme começa com um singelo churrasco organizado por voluntários em um dia ensolarado quando os presos, a maioria negros vestindo uniformes brancos, comiam carne, dançavam ao som de música ao vivo e ouviam sermões ocasionais. Era o máximo que a equipe podia fazer em termos de contato, já que decisão da Suprema Corte decretou que os diretores dos estabelecimentos podem impedir a entrada de jornalistas como forma de proteger a “segurança” dos presídios.
Logo em seguida, a situação virou. Vários prisioneiros contaram à equipe, na surdina, histórias diferentes: espancamentos frequentes, esfaqueamentos não relatados, violência acobertada e condições deploráveis. Gritos de socorro ecoavam de dentro dos dormitórios abafados, condições subumanas de tratamento eram a tônica. Posteriormente, os contatos evoluíram para um intercâmbio clandestino de mensagens, com sons e imagens transmitidos direto do interior da prisão. As imagens, apresentadas em um retângulo vertical na tela, denotam uma forte carga de urgência – e os sons, descritivos narrados pelos presos, complementam o caráter assombroso da denúncia.
Não temos acesso ao mundo exterior. Por favor, compartilhe isto.
Esta foi a mensagem recebida logo no dia da visita “oficial”, várias vezes. Celulares contrabandeados tornam-se vitais para comunicação com o “mundo exterior”. Tudo é perturbador, pouco a pouco desenha-se um quadro carregado de dramaticidade: celas infestadas de ratos, pilhas de excrementos humanos, comida podre e pisos manchados de sangue; espancamentos rotineiros por policiais e homens sendo carregados em sacos para cadáveres. E ainda, corredores com drogados no limite do esgotamento físico e mental (quem vende as drogas no mercado negro são os próprios agentes penitenciários).
Dois detentos se destacam – Melvin “Bennu Hannibal Ra-Sun” Ray e Robert Earl “Kinetik Justice” Council. Eles puxam as denúncias pelas redes sociais, galvanizando a audiência, não apenas da Easterling, mas também das demais penitenciárias do Departamento de Correções do Alabama (ADOC). O ADOC é um sistema que aprisiona cerca de 20 mil pessoas e ostenta as maiores taxas de morte por overdose, homicídios e suicídios de todo o imenso país que são os EUA, onde reside a maior população carcerária do mundo. Esses índices dão uma ideia da situação patética das prisões no Alabama – estado de forte tradição conservadora, ligado historicamente à Guerra da Secessão e à defesa da escravidão.
Em 1860, quase metade da população do Alabama era composta por pessoas escravizadas (cerca de 435 mil pessoas). Trata-se de um dos estados que mais vota no Partido Republicano, caracterizado por uma cultura política enraizada no conservadorismo social, religioso e na valorização da autonomia dos estados. Este último aspecto é fundamental em “Alabama: Presos do Sistema”. Em 2020 o Departamento de Justiça em Washington processou o ADOC por “violência e abusos sistemáticos”. Isso foi no governo Biden, o que se passou depois da eleição de Trump em 2024 não é detalhado no documentário, mas não é difícil de imaginar.
“Alabama: Presos do Sistema” vem à luz no momento em que os direitos humanos e políticos estão sob forte pressão pelo governo em Washington, sobretudo no que toca às ações do ICE, serviço de imigração e alfândega dos EUA. O país foi tomado por uma política altamente polêmica, para dizer o mínimo: operação em massa de captura e deportação de estrangeiros supostamente em situação irregular de visto. Curioso é que nesse particular a administração Trump visa exatamente coibir a autonomia dos estados e municípios, como vem ocorrendo em relação ao trágico evento de Minneapolis.
No início do filme Robert Earl Council aparece sob confinamento, ou seja, solitária, em razão de seus esforços de organização dos presos. Ele e Melvin conseguem articular uma rede que produz em 2022 uma greve de 11 dias em todo o Alabama – o trabalho dos detentos gera 450 milhões de dólares anuais ao estado, logo a greve gerou forte animosidade no governo estadual. Ambos, Council e Melvin, são reiteradamente condenados à solitária. Council é espancado e perde um olho.
Com a indicação de “Alabama: Presos do Sistema” ao Oscar de melhor documentário, o quadro se agravou. Despacho da Associated Press de 31 de janeiro de 2026 informa que três presos, Melvin, Council e Raoul Poole foram transferidos de suas prisões atuais para confinamento solitário no centro correcional de Kilby, sem comunicação com familiares e advogados. Todos temem por retaliações – no Alabama, a espiral de violência parece não ter fim.




